domingo, 29 de abril de 2012


O Arrumador de Guardachuvas

Mais uma vez, aprontando as malas para a viagem, entre roupas, bolachas e outras coisas que depois nem lembro ter colocado na bagagem, com toda a seca que se dá neste período, lá está um guardachuva que havia sido "consertado" há pouco tempo.
Vou contar esta história.
08 de novembro de 2009, ganhei o meu dia!
Disposto a colocar umas coisas em ordem, limpar o pátio, o carro, cuidar de uma plantação de uns 4 pés de aipim, foi um “pretinho básico” pela manhã e vamos ao sacrifício.
Na frente de casa, dando uma geral no meio fio, Carolina, a filha mais nova, me dava uma ajuda maior do que ela imaginava. Um bate papo muito bom, fazia o tempo  passar sem eu perceber, e o trabalho andava rápido.
Estávamos num domingo, era algo em torno de umas 11:00h da manhã quando na rua surge uma figura...tipo assim, "andante". Calça jeans surrada, regata nas mesmas condições, sandálias, uma mochila velha, e parecendo um arqueiro da trupe de Hobbin Wood, trazia às costas um feixe de cabos de guardachuvas.
“Bom dia! O amigo não tem guardachuva pra consertar?”
Olha...tenho sim, dias atrás mesmo, chovia e dos  “morcegos” que tentei usar, um abria depois de não precisar mais e o outro...o que abria, tinha uma vareta quebrada, jogava mais água pra dentro do que pra fora, talvez nem valham o conserto?!  Mas quanto custa o teu trabalho meu amigo?
Pois olha...tanto faz o defeito...eu cobro 3 reais por guardachuva!

Cheguei a duvidar que ele realmente oferecia trabalho em troca do sustento, mas era real...”era 3 real...” e nestas horas, dá vontade de pegar uma pessoa como este “cara”, e como se isto pudesse contagiar mais alguém, levá-lo ao encontro de pedintes, flanelas e tantos outros que apenas...pedem!
Há quem diga que em 2009, por um pouco mais do que este valor, se compre um guardachuva novo. Mas é um pouco mais, produz mais lixo, não ajuda alguém que procura oportunidade, e não proporciona iniciar o dia do jeito que conto agora.
O “Arrumador de Guardachuvas”, além desta habilidade titular, se denominou um hippie, artesão e ambientalista...um verdadeiro amigo dos animais.
Portador de uma inteligência imensa, falou de fatos atuais, sobre poluição e outras tristezas  que assolam nossos planetinha. Esta conversa me fez perder a hora do almoço, deixei minhas ferramentas no chão e fui me envolvendo nas histórias do "Arrumador", que dispensou o conforto de uma cadeira oferecida, para trabalhar agachado na calçada, como ”de costume”.
Natural de Rio Grande, vive por aí o “Marcos Gilnei Castanheira Silva”, ou o “Nei dos Bambuzinhos” como é conhecido na comunidade hippie. Pulseiras e colares na praia é o trabalho de verão....”brincar com artesanato é uma forma de ganhar a vida com algo que me dá prazer...tu já imaginou isto?” Diz ele, surpreso em sua própria satisfação  por trabalhar com algo que nem lhe dá trabalho. Feliz, com um sorriso de poucos dentes, quando muitas dentaduras perfeitas e maduras ainda não encontraram realização alguma em suas atividades, fica-se ainda mais surpreso ao  saber  que o “Marcos” não nasceu em família pobre, apenas em um certo momento optou por uma vida simples, praticando coisas que lhe trouxessem liberdade e contato com muitas pessoas.
Trabalho meticuloso, entre um monte de peças que um dia já fizeram parte de um guardachuva novo, corta um arame aqui, conta uma história de lá, dobra um arame ali, o velho alicate parecia uma extensão da mão do homem rude. Tentei fazer com que sua permanência fosse a maior possível mesmo na hora do almoço, sabia-se lá quando ele estaria por aí novamente, o almoço eu esquentava depois.
O “Arrumador”, entre tanta história, falou que seu jeito simples, uma figura pouco comercial para o olhar popular, faz com que muitas vezes nem consiga apresentar sua proposta de trabalho, e que estava muito feliz por estarmos ali, agachados na calçada, conversando. Claro que me senti feliz também pela nobre observação do homem, em agradecer por ser bem recebido, mas era um homem de conteúdo, eu estava ganhando meu dia!
Trabalho encerrado, o homem precisava partir, outras casas, outra cidade, a praia quem sabe?!
Sou batizado cristão, basicamente sem praticar, mas o "arrumador” disse acreditar naquela força maior e sente que está sempre bem acompanhado.
Paguei o homem com uma enorme satisfação, e como já havia pedido seu nome, pedi um favor: uma foto junto com aquela figura que chegou, pediu por trabalho, e para a mim é digno de exemplo, respeito e registro.
Me despedi do Nei: "vai com Deus amigo", e volte um dia para mais guardachuvas. Venha com tempo para mais histórias, uma chimarrão.
Ele parou por um instante, e apontando em minha direção disse:
"Eu tive um sonho..."
Não falou mais nada, virou-se, e lá se foi o arrumador de guardachuvas.
Acho que era um sonho bom.