Almoçar depois de uma manhã puxada, para meu irmão e eu, era um momento especial. Da cozinha de nossa casa, já se provou em família as coisas mais incríveis que eu já vi. De ovo frito inteiro, farinha que vira pão, até até os pratos mais elaborados e enfeitados que já conheci.
Fico perplexo com tamanha habilidade, pois me compete a falta de jeito na cozinha. Até consigo colocar água nas forminhas e faço um gelo muito bom, mas de resto...
Certa vez vi na TV, um famoso chef de cozinha, "Olivier", preparando um prato que usava ovos, era um truque excelente. Com apenas uma das mãos, segurava o ovo de galinha, quebrava e separava as duas metades da casca deixando escorrer totalmente clara e gema para dentro de um recipiente. Não tive dúvida, na primeira oportunidade tinha que tentar. Vamos lá: pego o ovo só com uma mão, dou uma batidinha nele sobre o balcão que está ao lado do fogão com a frigideira já no fogo...e...”abracadabra!”.
Meu truque foi mais que perfeito. Não só quebrei o ovo com uma mão apenas, como também fiz sumir o que havia dentro dele. Cheguei a pensar que era um ovo vazio, afinal, um pinto não poderia sair voando tão rápido assim, enxergar eu ainda conseguia fazer bem. Um olhar mais atento, percebi que o miolo do ovo se esvaiu entre o balcão e o fogão, fazendo a maior meleca.
“Não tá morto quem peleia”, dizia novamente o cara que também não sabia quebrar um ovo e que depois tentou fazer um pão, pois eu também tentei.
Um dia desses, minha esposa não estava em casa, apenas eu e as meninas, olhando TV, quando Olivier, aquele mesmo, preparava um pão caseiro. Aquilo era de dar água na boca e asas à imaginação. E nós estávamos com o laboratório livre, a disposição para pequenas explosões e outros testes com fogo.
Vamos fazer um pão? A pergunta foi respondida em coro pelas duas: “Vamos!”.
“Simbora” pra cozinha. Panela, pote, rolo de massa, colher, Farinha, leite, ovos e...fermento? Mas qual era o fermento indicado mesmo? Internet! Isto é uma maravilha moderna, Juliana foi designada a secretária do centro de pesquisa de introdução ao teste nuclear de agrupamento atômico. Átomos de Farinha no agrupamento com outros ingredientes. Em frente ao computador ela foi ditando cada componente do bendito pão enquanto Carolina e eu conferíamos. Mas a dita receita só definia “fermento para pão”, e nos envelopes ou frascos que tínhamos em casa, não se lia “Fermento para pão”, ou era biológico, ou era químico. Corri até o armazém mais próximo e pedi: “fermento para pão” por favor! Tu queres o fermento biológico? É muita sacanagem! Eu corro para um armazém justo para ter o fermento adequado, e parece que o dono quer que eu diga que não sei. Zé...eu quero fazer um pão, e não sei qual é o fermento (pronto...confessei), e lá voltei eu para casa com um fermento na mão que até hoje não lembro mais o que era, só sei que era muita vontade de fazer o pão.
Ingredientes a disposição, era só botar a mão na massa. Em algumas ocasiões, já havia ajudado minha esposa a esticar estas massas com o rolo, e apesar de bem atrapalhado na cozinha, depois de ter a massa pronta na mão, eu até que me virava bem nesta operação. Mas desta vez, eu e as filhas inventamos de fazer tudo, na ausência de quem certamente sabe o que faz na cozinha.
Um quilo de farinha para um único pão era suficiente para a baderna que estava para acontecer. Nada de pães pequenos, tinha que ser um grandão. Todo mundo sabe no que dá ter olho grande. Um volume desses de farinha, mais o resto de: fermento, água, um pouco de sal, um pouco de açúcar...é muita mistura pra quem já faz confusão só com um ovo de galinha.
Aquele quilo de farinha tomava uma proporção descontrolada. Somado a isto, tinha mais a farinha que era polvilhada na bancada, para deixar a massa mais...sei lá o quê, mas é assim que se faz. Só sei que a bancada de um metro quadrado estava ficando pequena, e sobre ela haviam misturas que eu nem lembrava de ter usado, e ainda nem havíamos colocado fogo no negócio. Caramba...o forno! Qual seria a temperatura? Mas eu não poderia ligar pra ninguém, tinha que ser um projeto independente, só eu e as meninas. Nesta hora ninguém parava de rir. Pisávamos em farinha, elas diziam: Acho que a mãe vai te matar! Eu tinha certeza, mas primeiro tinha que acontecer o tal pão. Esperamos uns minutos para a massa descansar, e descansamos junto com a massa, preferia estar fazendo uma parede de tijolos. Filha, varre o chão antes que a mãe chegue. A vassoura ficou um espetáculo, as cerdas escuras, ganhavam agora um tom grisalho e talvez fosse com esta arma que ela iria me bater. Mas seria divertido ver saltarem nuvens de farinha de uma vassoura em ação.
Finalmente a gororoba foi pro forno. A mais ou menos um monte de graus de caloria, só de abrir a tampa, percebia-se que era a temperatura perfeita. Vai meu filho (o pão), vê se cresce o suficiente para nós três não passarmos vergonha, mas não muito pra não estragar o forno.
Foi um filme de uns quarenta minutos. Tela plana e quente, o ator principal era um pão mesmo. O bicho velho ia crescendo como todo galã de cinema no decorrer do ato, diante de uma platéia apreensiva, imaginando a tristeza que seria quando a dona do pedaço chegasse.
Finalmente o assado chega ao fim. Cumprido o tempo recomendado pelas leis do pão caseiro, no que constava o artigo único da internet, abrimos a tampa e demos as boas vindas ao objeto criado a seis mãos. Eu tinha que dividir a culpa, e as meninas eram pura diversão, sempre fizeram isto em situações parecidas.
O formato circular, o tamanho generoso, aquele quilo de farinha rendeu o que se poderia comparar a uma grande tartaruga. Se tivesse rodas poderia facilmente virar um fusca. Assim ficou aquilo que eu só queria que fosse...um pão.
O gosto...bem, não se pode acertar todas, mas errar o ovo e o pão ninguém merece. Era um gosto que lembrava muito a farinha, não sei por quê. Mas nada que com fome e uma misturinha não desse para engolir.
E então ela chegou, sentiu o cheiro, olhou a obra, deu risada e nos deu parabéns. Talvez fosse pela satisfação, na certeza de que por enquanto, não haveria concorrência.