quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Teste explosivo
 
O dia ainda não havia acabado, poderíamos esticar um pouco mais, mas resolvi encerrar ainda cedo. Meu irmão fazia uma velha brincadeira. Com um isqueiro ele injetava uma quantia de gás dentro da mão semiaberta, acumulado, este gás era queimado acionando o mesmo isqueiro, abrindo a mão, formando uma chama breve.
Imediatamente lembrei-me de uns vídeos da internet, onde os caras usam uma lata de aerosol teoricamente quase no fim, colocam em um lugar seguro, enrolam umas voltas de papel na lata, tocam fogo nos papéis e de uma certa distância, aparentemente segura, disparam um tiro com arma de pressão na lata. Pelos vídeos viam-se chamas fantásticas (eu gosto do fogo lembram?), pois mesmo o resto de gás de um aerosol destes, está lá com alguma pressão interna, o furo do chumbinho na lata, libera o gás pela fissura que é imediatamente inflamado.
Nestes vídeos aconteciam de tudo, chegando até a acontecer nada também. Mas já que o assunto era “fogo”, e o pai não estava mais lá pra dar bronca nos seus “guris”, partimos para a brincadeira. Lembrei que eu ainda deveria ter um aerosol no galpão. Procura, procura, lá estava: “Fluido para isqueiro”.
Agora eu viajava na história, e não daria para deixar de contar:
Há muitos anos, um grande colega de trabalho, eterno amigo, cultivador de bons hábitos sociais, esportista, apreciador de bom rock e de motos,  Bruno Wagner, um grande escritor de fato, entre tantas histórias escreveu e repassou aos amigos experiências fantásticas, viagens de moto pela América do sul, baseado em experiência igual de seu ídolo “Neil Peart”, baterista da banda RUSH, Bruno também era um apreciador de charutos.
Quando trabalhamos juntos nesta empresa que me encontro atualmente, depois do almoço, um grupo de amigos sempre acompanhava Bruno em sua habitual caminhada. E tinha que ser conforme estipulado na lei do “caminhador”, até um ponto determinado, para valer em dobro, pelo hábito saudável e pela conversa que este momento propiciava. Eu me sentia o legítimo Johnnie Walker, e a coisa virou vício.
Nestas caminhadas, entre uma variedade de assuntos, Bruno falou tantas vezes das experiências com charutos, que em determinado momento me vi em um balcão de tabacaria da minha cidade, escolhendo o tal charuto, sem nem mesmo ter idéia do que me esperava.
Um pouco assombrado com a variedade de tipos e preços, optei pela média, para não me decepcionar com o sabor, muito menos com o valor.
Cheguei em casa com o “bagulho” escondido, e já me sentia um transgressor, quase um dependente, do prazer de ter algo a esconder, mesmo que sem importância alguma.
Cruzes! Que fedor é este? Foi o que eu lá da rua, ouvi gritarem de dentro de casa. Caramba, me escondi para praticar o ato ilícito, mas a fumaça me denunciava. Minha esposa, especialista em sabores e aromas jamais deixaria passar sem perceber uma queima diferente nas redondezas da propriedade urbana.  Foi ver o que era, por que eu não contaria. Ela não acreditava. Estás fumando? Siiiiim! Resposta de quem é pego com “o charuto na boca”...cara de guri arteiro. Rir era inevitável, e para encurtar esta noite de crime, tive que apagar o “crivo” e fui recolhido a Delegacia da Patroa.
Os próximos dias seguiam com variadas tentativas, entre marcas, tamanhos e valores. E assim como muitas coisas na vida, é na persistência que se descobrem grandes sabores. Já havia identificado o sabor que meu paladar aprovara entre todos os experimentados, e já possuía um kit, que não passava da caixa de charutos, um isqueiro desses quadrados em chapa metálica e um spray de gás fluido para abastecer o isqueiro. A família passou a encarar minha prática como um saudável desfrute no finalzinho da tarde.
Uma fumaça branca e espessa, e nesta atmosfera eu revia o dia, pensava no próximo e lembrava de um grande amigo.
Sentido pelo fato de que bons amigos no trabalho, raramente permanecem por uma eternidade nesta companhia diária, depois que nos afastamos pela ligação do trabalho, continuamos até hoje no contato eventual, mas verdadeiro.
Agora que está explicada a origem do spray encontrado, vamos ao teste explosivo.
O dia está acabando, e é preciso preparar material de segurança (balde com água), rota de fuga (tirar as ferramentas do caminho) e revisar o armamento. A velha espingarda de pressão estava um caco, ainda bem que achamos os chumbinhos, pena que eu derrubei todos no chão, no meio do barro, e agora era correr para recuperar alguns, limpar a munição e tentar o efeito estufa ainda antes de escurecer.
Onde fazer? Tinha que ser um local seguro, já tinha visto naqueles vídeos, alguns testes que nada acontecia, mas outros por sinal, davam um estouro com uma bela língua de fogo, sem contar que o spray poderia se projetar em alguma direção.
Vamos fazer dentro do galpão disse meu irmão. Sim...respondi, e botar fogo em tudo! Já estava demorado de construir, imagine refazer as coisas depois de um incêndio.
“Onde tem dois guris brincando o diabo não cruza”, assim diz um ditado, e não é de duvidar. Duas almas jovens estavam prontas para fazer uma arte que há anos eu não fazia. A idéia foi colocar tudo em baixo do andaime, encostado em uma parede, dentro da parte nova da obra. Paredes de todos os lados, se voasse para cima, bateria em baixo do andaime.
De que valeria um teste de lançamento sem registro? Câmera do celular na mão, também poderíamos provar quem nem só a NASA vive de testes frustrados.
Filipe pegou a espingarda, eu me encarregava do fogo, "gosto...gosto". Mas era atear a fogueira, fazer a volta, e do outro lado da parede, através do que viria a ser a janela do quarto do pai, fazer a filmagem.
Três ou quatro tiros e o brother provou ser o pior atirador de elite que o capitão Nascimento já viu. Ela pega o celular, me dá a arma (de pressão), e por incrível que pareça, no primeiro tiro, uma labareda espetacular emerge da lata de aerosol. Da pressão liberada da lata, associado à visão imediata do fogo, em um reflexo instantâneo, chegamos a pensar que ele não teria captado as imagens. Sabe como é reportagem sensacionalista: “Eu quero as imagens!”

E estas foram registradas sim, com a clareza dos 2 mega pixels do equipamento disponível, rendendo várias visualizações, de nós mesmos.
O departamento de segurança entrou em ação, apagamos o fogo, e apesar de chamuscar um pouco o velho andaime, correu tudo como previsto. Foram muitas risadas, tão bom mesmo, que nesta noite eu acabaria por ir para cama, cansado do trabalho, mas de alma leve, por ter sido criança mais uma vez.