O novo emprego
Segunda feira, o alarme do telefone celular toca bem cedo. Já contei aqui sobre gostar de trabalhar, mas 4:45h...é brabo!
Um lanche rápido, malas no carro, a turma ainda dorme, uma olhada por toda a casa e um auto desejo de boa viagem...pé na estrada.
É começo de primavera, estou na segunda semana de trabalho e preciso percorrer pouco mais de cem quilômetros na direção do trabalho que me espera. Vou tranqüilo, pois para esta viagem, rumo a serra, reservo tempo de sobra para não precisar correr, tudo que mais quero, é esticar esta vida ao máximo possível, para tentar fazer o que puder, afinal, "ser feliz é tudo que quer".
Em outro período da minha vida, já havia feito o mesmo roteiro rumo a uma cidade vizinha à esta que vou agora. Um ano e meio de trabalho, raras vezes eu ia no próprio carro. A maioria das idas eram de carona, e confesso que apesar da boa conversa já na saída, depois de um tempo de viagem, ao se instalar o silêncio no carro, vinha a parte ruim, que é pensar na pedra que vai aparecer na próxima curva, aquele mesmo posto de gasolina lotado já bem cedo, naquele "retão" de cansar a vista, ajeitar-se no banco umas duzentas vezes e esperar a hora de chegar.
Mas agora eu sei porque o "magrão" não se incomodava de fazer este trajeto. Estar no volante distrai muito mais, é preciso estar atento ao tráfego, pouco sobra para ver detalhes.
Por isto, já que agora sou piloto de mim mesmo, ir e voltar não têm sido nenhuma pedra no caminho, é preciso ter cuidado, claro, e tudo vai bem.
Um curso rápido para aprender um programa de modelagem 3D, o que me ajudaria muito nos projetos para esta empresa, já que o programa que eu dominava não era o usado por "lá", foi uma boa novidade já no início de tudo. Foi preciso paciência do professor, é verdade, mas nada que na insistência não se aprenda.
E foi neste tranco, duas semanas e já conseguia "me virar" com a nova ferramenta.
Programas de projeto em 3D são excelentes. Primeiro, porque mesmo em telas de 15 ou 21 polegadas, são representados em tamanho real, segundo, porque passam uma imagem muito fiel dos materiais utilizados, suas texturas, aparências, cores, luzes e sombras. Ao "girar" um produto acabado na tela, deixa muita gente impressionada, chegando a passar a impressão de que se está brincando. Até concordo!
Bem, acabei falando o terceiro motivo, trabalhar com desenho é algo tão bom, que faz um cara apaixonado por esta arte, gostar cada vez mais desta "vidinha".
Reunindo muitas informações, pesquisas sobre o que deveria desenvolver, consultar a área comercial, cliente, uma espiada na concorrência, minha bagagem profissional que já não era pouca, associado ao conhecimento do diretor da empresa, e eu estava armado para a luta.
Desde a primeira linha desenhada, agora seria assim. Era preciso começar um projeto do "zero". Uma boa chance para recomeçar a lida, fazendo cem por cento da obra, e neste ritmo, em uma semana de trabalho, o desenho se mostrava que ainda era meu aliado, amigo, e possivelmente, ainda apaixonado por meu carinho com ele.
Era como uma poesia..
O Desenho e eu
Linhas pensadas...outras perdidas
Traçadas só como base
Para depois serem corrigidas
Curvas suaves...determinadas
Esboços na tela e no papel
Éramos abelha e mel
No enrosco do ofício
Um chamando pelo outro
Cada qual com maior gosto
De fazer com qualidade
Desenvolver algo de útil
A serviço da humanidade
Foi sempre assim. Este trabalho envolve outras rotinas, como definir materiais, contato com fornecedor, cliente, colegas de fábrica e de vendas, algumas viagens, boas atividades, mas a hora de desenhar...o que dizer? Está na poesia...
Neste romance todo, o desenho e eu, fizemos a primeira apresentação, o que rendeu uma aprovação, era uma indicação de que estávamos no caminho certo.
A semana passou e é hora de apontar o carro na direção de casa.
Som no rádio e todo o tempo do mundo para chegar de volta em casa. Esta passagem é da segunda semana de trabalho, mas no momento que escrevo, já se passam seis meses de trabalho, e o que parecia um pouco difícil no começo, agora já tem outro gosto.
Deixando a cidade, depois de vencido o contrato, aquerenciado, conhecendo ruas, casas, belezas locais, sinto um certo alívio, aquele aperto do recomeço vai se desfazendo, e indo pela, na passada pelo pórtico da cidade trabalho, já consigo me despedir sem receios de voltar.
O retorno se dá em clima de alegria, entre sustos com a imprudência alheia, ainda bem que predominam os bons motoristas.
Neste trajeto, existe uma especie de "triângulo da bermudas", um trecho onde o rádio só sintoniza a emissora do "bolinho frito"...uma chiadeira de dar dó, salvo quando o motorista sabe o que lhe espera, então é hora de colocar o velho pen-drive.
Com o supra do sumo do pop-rock, vou gastando as curvas dos ouvidos, olho na estrada, e uma cantoria de rachar o espaço.
Terraplanando agora, uma região mais bem servida na captação de frequências, já dá pra tentar uma emissora de rádio, o que também é uma boa pedida. Neste horário, uma turma de comunicadores faz uma hora de programa em que se ouve um infinidade de bobagens, o paraíso para relaxar os maxilares, tudo que tenho a fazer é ficar atento ao trânsito e deixar a pista me levar.
Chegar são e salvo, acionar o portão, estacionar lentamente e desligar o rádio, tirar o cinto de segurança, abrir a porta do carro, descer e encontrar a família, é ter a certeza de que vida é boa e que todo sacrifício vale a pena.
Descarregar o carro é rápido. Uma grande mala preta com rodinhas, saiu organizada e volta numa bagunça geral.
É tanta coisa pra conversar, parece que o fim de semana será pequeno, tanto riso, mas o que não poderia ficar de fora era "a casa do pai". Notícias da construção são reveladas com detalhes, melhor que isto só indo lá ver. E é logo ali...dez passos separam a nossa casa do que em breve será a moradia do velho pai. E este fim de semana tem um sabor especial, o pai vem outra vez ver como as coisas estão, e não bastasse sua presença com ares de festa, ele tem colaborado e muito para a sequência da construção, trazendo uns trocos, e agitando o ambiente.
Visto com os olhos, tudo que os ouvidos já sabiam, era hora de entrar e ver o que tinha para o jantar, e nesta confraternização misturada com o alarde, e conversas cruzadas, um olhar mais observador e vejo pela casa decorada com o rastro do que trago na volta.
Amanhã o pai estará por aqui e passamos um tempão tentando adivinhar sua reação ao ver o estado das coisas.
Na última vez que ele veio, tudo estava parado por várias semanas, do jeito que meu irmão e eu deixamos quando optei dar um tempo nos trabalhos até que conseguisse encaixar um novo emprego. Traduzindo: paramos ao chegar com as paredes no final, deixando algumas ferragens de vigas prontas para serem concretadas, brita espalhada por dentro da casa esperando pelo contra-piso de cimento, e era isto, mesmo que parecesse pouco, foi o que pudemos fazer praticamente com pouquíssima grana, o mínimo tempo disponível e muita força de vontade. Só que para este fim de semana, o pai teria uma visão pra lá de satisfatória:
Telhado instalado, contra-piso pronto, reboco interno acabado e por fora quase. Esperas para tomadas e interruptores definidos estavam espalhados por todos os lados, não havia parede sem opção de ligar algum aparelho. Muitos recursos que faltaram na nossa casa, e que só com o tempo e a necessidade vimos que era a oportunidade de botar em prática algumas idéias, que em grande parte, nem chegam a custar mais caro.
Com muitas novidades para mostrar, era só aguardar a chegada do pai no outro dia e apresentar cada canto da casa como um cicerone conduzindo um turista pelas maravilhas de um lugar que o próprio guia idealizou.
A visita anterior do pai, havia sido bem breve, nem cheguei a registrar algo, mas a de amanhã, esta não me escapa da escrita.