Visita do Pai
O rendimento do último fim de semana, com a ajuda do meu irmão e seguido da ajuda da filha, foi notável quando no próximo sábado, meu irmão se apresentou no canteiro de obras da construtora: “A Casa do Pai”. Ele ficou espantado, quase esquecendo que maior parte de tudo que via era fruto de sua colaboração no fim de semana anterior. Estava funcionando, eu fazia o possível para realmente dar esta impressão à ele, de que as coisas não andavam só quando ele poderia vir. Achava que isto seria também motivador para ele e era mesmo. Bah mano! Assim vamos terminar rapidinho. Eu sempre concordava, mas pelo calendário, ainda levaríamos um bom tempo eu pensava.
Mãos a obra, porque neste sábado, tijolos vão para o seu lugar. Não sabia quantos, mas colocaria quantos a minha lembrança sobre esta técnica permitisse. O Tijolo fundamental estava lançado, pois a primeira pedra já estava em seu lugar junto com todas as outras. E foi num “tranco” lento, que fechamos o dia com uma parede de uns seis metros e seus três tijolos de altura..sempre rolando muita conversa, histórias do próprio pai, e durante este dia, como o assunto era colocar tijolo, alcançar tijolo, quando encontrei um pedaço de isopor enterrado, bem sujo, parecendo um tijolo ou uma pedra, pensei: agora é a minha vez! Forcei uma condição, de precisar lhe atirar alguns tijolos para que ele fizesse uma pilha, e no meio desses, lá se foi arremessado aquele pedaço de isopor...mas para ele era um tijolo. E correr para onde? se a nossa volta tudo ainda era um amontoado de restos de paredes quebradas, e todo material que saiu da escavação.
O ministério da brincadeira malvada adverte: Não faça isto sem conhecer bem seu parceiro, seu humor, sua reação e a rota de fuga que este terá como opção ao se desviar de um objeto arremessado em sua direção. Eu disse que pegava ele.
O conhecido retorno de meu irmão à sua casa e a “pegada” solo no dia posterior, se dão novamente iguais, mas neste domingo, depois de quase uma hora de preparação ao início dos trabalhos, um chamado na frente de casa foi uma grande surpresa. O homem do livro, razão da obra construída e da obra escrita, meu pai aparece lá em casa. Achando que encontraria os dois filhos com a mão na massa, errou o dia e meu irmão infelizmente perdeu a chance de ver o pai, que pena. Um grande abraço no pai, desses que se dá em alguém que se ama, e que apesar de conversarmos com uma freqüência razoável ao telefone, a presença do pai é praticamente um evento. Anunciando de chegada, que era “jogo rápido”, o pai se apresentava bem vestido: de calça social escura com friso, botas novas, uma jaqueta combinada com o resto e com o frio também, literalmente como poderiam dizer algumas senhoras: “Um gato”. Mas era só uma passadinha, para ver se ele apesar de não poder estar fazendo esforços maiores, por questão de saúde, poderia ajudar em alguma coisa, como alguns trocados para contribuir na obra. Ora pai, temos um bocado de material de construção aqui, Filipe me dá uma mão aos sábados, os domingos também estão sendo trabalhados para chegarmos ao final o mais rápido possível, então, gastos com mão de obra é zero, e acima de tudo, quanto pagamos ao senhor por nos ter mantido em casa até seguirmos nossas vidas?
Convencê-lo de que neste momento não era necessário um apoio financeiro, era tão difícil quanto sua permanência longe da gente. Não teve jeito, do fundo bolso, ele retirou um saco de papel, tipo estes de pipoca, mas de cor parda. Ali estava um valor equivalente a mais de vinte sacos de cimento. Não fiz corpo mole, aceitei aquilo que meu pai trouxe com o meu nome escrito..ou era o nome dele, sei lá, sei que trouxe com muita gratidão pelo empenho que estávamos dedicando. Ele realmente queria vir logo, e este “pacotinho”, mesmo depois de vazio, foi guardado como lembrança.
Logo após o almoço, o pai conversou mais um pouco, e já estava inquieto. Claro que era bom estar ali conosco, era tudo que ele queria na verdade, e em definitivo, mas seu compromisso com a casa que ele cuidava, era levado a sério. Um adeus bem rápido para não ficarem sentimentos aflorados e lá se foi o pai, numa estampa que só vendo.
Continuei pela tarde, dividido entre a frustração de não andar tão rápido quanto gostaria e a satisfação de ver o meu pai, melhor mesmo se meu irmão também pudesse vê-lo.
Emoções de lado, sigo tocando em frente, com o gostinho de quem recebeu a visita do dono da obra e ficou satisfeito com isto. Talvez não seja a realidade de alguns construtores, claro que meu motivo nesta tarefa está além da sobrevivência, e aqui, o dono da obra é sempre bem vindo e atualmente, me sentia extremamente vivo com isto.