CHIMAROCK
Variando entre duas ou três pessoas, nunca menos de um, já vínhamos tomando o bom chimarrão, diariamente à rigor.
Na empresa, assim que soava a sirene do meio dia, para nunca envolver o sagrado tempo do trabalho, poderíamos no máximo já ter a água aquecida para preparar o "mate", tudo em favor do motivo que reunia agora "amigos" com alguns objetivos, principalmente...rir.
O grupo ia aumentando sensivelmente com o passar dos tempos, assim foi preciso buscar um novo espaço. Uma sala neutra, livre para o grupo e sua prática viciosa, estes encontros poderiam ter sido tranquilamente transformados em um programa de rádio. Integrantes fixos, éramos uma meia dúzia de cinco a sete , mas chegávamos facilmente a umas doze ou quatorze pessoas na "salinha", e quando se anunciava uma pizza então...cruzes...o mundo era pequeno para tanta conversa cruzada. Nunca havia pensado antes disto, que ouvir uma gritaria pudesse ser tão bom. Durante o trabalho sempre gostei de pouco ruído para preservar a concentração, para poder viajar nas minhas criações, mas no templo do chimarrão tudo era permitido. Histórias simples, outras bem "lôkas", casos tristes acabavam em alegria, sem desprezar a gravidade de alguns fatos contados, mas o grupo era assim, alegria era fundamental. Ocupando a primeira meia hora do horário do almoço, este grupo fez involuntariamente, o que de melhor poderia fazer para conviver com a crise. Colegas de trabalho, a partir deste momento, assumiam o espírito CHIMAROCK.
Nomeado e instituído inicialmente como um momento de falar nada sobre trabalho, quem contasse uma história, de autoria pessoal ou não, de maior efeito a arrancar risos, tinha o conceito elevado e seria sempre ouvido com muita atenção.
Esta meia hora chegava a ser curta para tantas histórias a serem contadas, a qual emendávamos com o almoço, melhor ainda, o almoço já não era suficiente. Era comum ficarmos no restaurante da empresa até o último instante antes do apito que avisava: "voltem a realidade...amanhã tem mais".
Conto isto com uma satisfação tal, a ponto de acreditar que o horário de almoço nos dias de trabalho, não podem ser um momento sem sal e sem açúcar. Penso que devemos permitir conversar bobagens, dar as risadas que não cabem durante o expediente e muito importante nestas horas, saber falar e também ouvir, contar histórias olhando os olhos de cada um na roda de mate ou na mesa de almoço, e perguntar...perguntar como foi o dia, o jogo do amigo, as músicas que ele ou ela gosta, se conhecem alguma solução para algo que pretendemos fazer, um bom livro que se leu, um livro ruim que não recomendamos, alguém aí pode indicar um livro? Escutar pode ser tão prazeroso ou mais que falar. Nossa experiência já está adquirida, a do outro eu ainda não conheço, e se esta permissão da fala for propiciada e justa, o ganho é inestimável.
Casos de morrer de rir, mesmo quando já estava de volta em casa, não foram poucos, tentarei lembrar de algumas passagens.
Jeferson (PC), contou "certa feita", que um gambá lhe tirava o sono e também os pedaços do forro da casa. Analisando a situação e a vizinhança que bem conhecia, resolveu que chamar os bombeiros para recolher o bicho era um procedimento que causaria menos alarde que a manobra de puxar escada, encostar na casa, arrancar telhas, e pior ainda, convidar o hospedeiro a se retirar, assim sem conhecer o idioma local, sem ordem judicial e nem sequer um pirulito de chamariz...o jeito era pedir ajuda mesmo.
É bem possível que nosso amigo "forest gump" tenha contado uma história muito detalhada aos bombeiros e pintado o diabo pior do que de fato ele era. Instantes após a ligação e a frente da casa foi tomada por algumas viaturas, com direito a escada telescópica, e giroflex, somem a isto a penumbra do anoitecer onde as luzes são mais bem vistas, e o nosso amigo se saiu pior que a encomenda. Antes ele tivesse usado sua escadinha e o pirulito.
Marcio era outra figura ímpar. Colega de muitos anos nesta empresa, conversava com tamanha calma que dava nos nervos, ainda mais quando além de devagar na fala fazia algumas pausas, deixando o expectador confuso: ele terminou, esqueceu, dormiu ou morreu? Pra completar o conjunto da obra, o caminhar do sujeito era (e é...) tão pausado quanto o ritmo da fala. Dá pra dizer que ele não caminha, mas que desliza va-ga-ro-sa-men-te por onde passa. Certo dia, contou sobre um atrito dentro da fábrica, demorávamos a entender que ele pudesse estar falando de algo parecido com uma discussão. Sua narrativa beirava a uma explanação de dicas de bom relacionamento, mas ele se conhecia muito bem. Disse muitas vezes: "Hoje estou meio irritado...se eu me incomodar mais um pouco...eu durmo".
Itamara, personalidade do RH da empresa era o norte da roda de mate, ponto de equilíbrio para a conversa não degringolar e virar baixaria, afinal, uma prenda no ambiente, inspira respeito. Só que com esta turma era difícil, a nobre colega em uma ocasião destes mates, entrou na sala, tomou uma cuia de chimarrão e correu para o banheiro, anunciando que ia voltar, saiu ligeirinho. Estava mesmo com pressa, pobre amiga. Sem óculos, demorei a entender o que via, na primeira olhada, algo estava pendurado na frente da sua calça jeans. Neste dia ela fora a única mulher do chimarrão, olhamos um para o outro, menos para ela, que se aproximou e clareou a visão do que era uma fita amarela que deveria ter ficado para dentro da calça jeans, revelava que a colega tinha bom gosto, mas pouca precaução. O riso corria frouxo, pensamos em ajudar e falar, me levantei, mas faltou coragem, desconversei e voltei a sentar. Jeferson dizia de cantinho que deveria ser um tipo de cordinha anti-pânico, do tipo: " em caso de emergência...PUXE!"
Neste embalo, subimos a rampa de acesso ao restaurante da empresa, ela sem entender, nós sem saber a extensão da fitinha, até que na fila do almoço, fui ficando para trás junto a ela e falei baixinho: "tens uma cordinha na frente da calça"...
Minha amiga um tanto encabulada, se virou de costas e consertou rapidinho o que causou tanto comentário. Eternos meninos são fogo!
Tem o Marcos, sempre com a história do Rock Gaúcho na ponta da língua, criador do nome do grupo, nosso técnico em segurança do trabalho, eu costumava dizer que ele era o guardião da empresa, sempre zelando pela integridade da turma, eis aí uma profissão humanamente nobre.
Murilo, que contou casos particulares pra lá de interessantes, muitos envolvendo personagens familiares, não perdia a chance de pregar uma peça nos outros, criou uma caderneta chamada "memórias da engenharia". Um livrinho onde ia escrevendo os acontecimentos mais curiosos, acabou ficando comigo (o livro).
Estrelas móveis, entre tantas que frequentaram este momento cultural, ao longo de quatro anos, um destaque especial ao Sr. Anselmo Rocha, assinava como "A. Rocha", só de ler o nome dá pra ter a certeza que o nome é igual ao dono, uma fortaleza.
Forte em muitos sentidos. O bom dia mais forte que já ouvi, sua imponente saudação ao entrar na sala de projetos, muitas vezes me tirou do estado de êxtase dos meus pensamentos criativos. Corredores silenciosos eram um sinal de que A. Rocha estava fora. Em dias frios, era comum se apresentar usando um Chapéu de lã, daqueles macanudos. E suas histórias eram de se perder na imaginação. Viagens, palestras, um conhecimento invejável. Quem teve o privilégio da convivência saiu no lucro.
Eu estive fixo estes anos todos, mas pra encerrar o relato do grupo, posso dizer que contei algumas histórias, tive o prazer de criar a musica do grupo, contando um pouco disto tudo, desenhei o símbolo do grupo CHIMARROCK, que impresso em camisetas e gravado em cuias de chimarrão, registrou de um modo físico o que já estava fundido em nossas cabeças, éramos e somos um grupo de amigos, que vai muito além dos nomes citados, quem participou está na memória, e assim seguimos rumos diferentes, falando eventualmente, sempre no mesmo ideal CHIMARROCK...♪♫ é chimarrão e rock ♪♫.
Está criado um caminho, para contar minhas Léguas de Vida, marcadas por Letras sem Fim............................................. João Vicente
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
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