Carol
Domingo. Ah...este domingo foi longo. Aquela companhia de ontem agora não estava por perto, afinal, meu sobrinho precisa do pai por perto o máximo de tempo possível. Para mim era fácil começar ou parar naquela tarefa a hora que bem entendesse, estava tudo em casa mesmo. Mas não demorou muito para meu entusiasmo se reerguer, apesar do friozinho, Carol, a filha mais nova, apareceu para dar uma olhada nas coisas. É comum a “pequena do pai” se apresentar para dar aquela mão involuntária, quase sem querer. Só de ficar na volta, conversando, perguntando o que é uma ferramenta, porque estou fazendo aquilo, e daquele modo.
A conversa flui tão bem, que a motivação é automática. Alguém que faça a cabeça desviar um pouco da tarefa braçal, faz com que não fiquemos pensando muito no trabalho duro, já chega ter de fazê-lo.
Uma porção de gizes coloridos, na mão da Carolina foram um achado dentro do galpão, e a própria porta da garagem (as vezes galpão, as vezes garagem) serviam como quadro para a sua mais inocente e pura criativa expressão. O personagem preferido a ser caricaturado acaba sendo o pai...o pai dela: “Eu”.
São bonecos estranhos, portando cuia, bola de vôlei, violão, dentro de ginásio, com ou sem óculos, cabeça quase lisa, não fica muito diferente mesmo.
Um certo orgulho me invade, ser retratado assim como prova de boa lembrança. Acredito que muitos de nós, eu, a família, você, queremos estar assim, na lembrança das pessoas que gostamos. Seja por sermos persistentes, esquecidos, organizados, dedicados, desligados, bem amigos e até...engraçados.
Basta ver no dicionário a tradução de “engraçado”, além da idéia coloquial da expressão, e assim afirmo: quero estar rodeado de gente engraçada, que tenha a graça de ver e viver a vida, principalmente pelo lado bom, com alegria de rir de si próprio, não esbanjar conhecimento perto de alguém menos esperto, ter entendimento suficiente para mesmo depois de maduro, brincar. Não podemos ser maduros demais quando ainda somos muito jovens, mas não deveríamos anular a criança que fará parte de cada um, até o último dos dias.
E nesta idéia divertida entre o trabalho e a conversa, Carol larga o giz depois de escrachar o seu pai, nas madeiras da porta da garagem, envelhecidas pelo tempo e se distrai um pouco com a massa de cimento. Enquanto eu preparo esta mistura, ela, menina, tão jovem, diz: como é interessante a textura deste cimento! Verdade filha. O cimento é muito interessante desde sua fabricação, transporte, fracionamento em sacos, comercialização, e manuseá-lo em pó ou na massa, são oportunidades aparentemente simples, mas só quem o faz pode dizer um dia qual era esta sensação. E não que tenhamos que ser todos “pedreiros” para uma hora dessas dar uma “mexidinha” na massa de cimento, basta estar por perto de um que o faça e pedir para “meter a colher”. Filha, quer experimentar um pouco? Claro pai.
Um tanto sem jeito, ou melhor, ao seu jeito ela deslizou a colher sobre a massa já misturada e umedecida e teve assim além da sensação do tato, mais esta participação na obra. E ficamos nós com uma boa sensação, quando permitimos aos jovens, sempre que estivermos em uma atividade diferente, a oportunidade de se envolverem. Trata-se de um trabalho, mas é quase uma brincadeira.
E assim o dia passou, o brother não estava, a filha apareceu... e como rendeu!
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