Meu irmão
...a estas alturas, a pá já não agüentava mais, meu carrinho com o eixo querendo pedir as contas, a enxada gasta pelos anos, já não era mais a mesma. O fim de semana foi duro, e a lida até agora, havia sido solitária, como aquela vida que meu pai viveu nos últimos tempos, eu precisava descansar, mas achei que estava bom o que tinha feito até então, bom mesmo...foi receber “a ajuda do Brother”.
Conversávamos um dia ao telefone, quando naturalmente falei que a obra já estava em andamento e ele prontamente se colocou a disposição, destacando a satisfação que teria em fazer algo especial para o nosso pai.
Não sou de aceitar as coisas de imediato, tinha que pensar um pouco. Mais uns dois minutos de conversa e disse a ele que poderia vir já no próximo fim de semana. Luvas, uniforme e ferramentas tinham de sobra para dois peões de obra.
Morando não muito próximo, uns 35 quilômetros entre nossas casas, separavam auxiliar de obra e auxiliar de obra, sim, porque não havia um especialista, restaria trabalhar num método antigo chamado: "axus quetá certus".
Meu irmão com filho novo, o pequeno sobrinho Hector, precisava ficar em casa junto com minha cunhada, que logicamente necessitavam ficar com o carro a disposição. Mesmo assim, meu irmão não hesitou em se deslocar de ônibus e trem, para colaborar no que viria a ser, apesar do tamanho: Uma grande obra.
Era cedo da manhã quando o telefone tocou, meu irmão me avisava: “Já estou a caminho”. Ele levaria um bom tempo, um ônibus até a estação de trem e mais a viagem, uns 50 minutos talvez. Me programei para estar na estação do trem de São Leopoldo antes que ele chegasse. Um movimento forte nas proximidades do centro da cidade, este trem aglomera muita gente nas suas estações e entorno. Paradas de ônibus cheias, pedestre fora da faixa, carro na faixa, uma organização espetacular. Um sábado frio, previsão de sol e de ajuda. O sol apareceu...o brother também.
Uma figura com nenhuma outra. Ao telefone, dizia já estar na estação combinada, mas eu não o via. Não era para menos, vinha ele respondendo a minha ligação, caminhando, encasacado, de óculos escuros e sem empunhar telefone algum, o fone de ouvidos, wi fi, bluetooth, wire less, é uma loucura mesmo.
Já no carro, vínhamos sorridentes, jogando muita conversa fora como de costume, assim como o pai, não se costuma gastar muita energia com assuntos dramáticos, nos quais nada se pode fazer. E precisaríamos de energia para o trabalho, e nesta empreitada, nenhum personagem do assunto da hora nos ajudaria. Parei meio do caminho, queria lhe mostrar uma casa que estava sendo construída sobre um barranco, à beira da avenida, estrutura simplificada, pretendia usar a idéia. Chegando em casa, cumprimentos e brincadeiras com as meninas, afinal, Filipe viu cada uma delas desde o nascimento e acompanhou boa parte da vida de nossas filhas, os três se identificam muito e nesta hora eu saio de cena. Deixo-os brincarem um pouco antes da “pegada” no trabalho.
Como está fazendo frio, e a promessa do irmão mais velho aqui foi de equipamento completo, não foi fácil ao perceber a má avaliação no padrão físico do assistente de pedreiro. Meu irmão beirando um metro e noventa, e minhas roupas de quem mal passa dos um metro e oitenta deixam o coitado de canelas de fora. O índio velho não se intimida, vai assim mesmo...azar! Sorte a minha esta valentia toda. O calçado ele trouxe, um tal de “crocs”. Uma espécie de tamanco onde faltou madeira e fizeram de borracha, mas pesa como isopor. Ele gosta.
Hora de parar com a brincadeira, o pai está lá longe, talvez contando as horas pra poder continuar a vida perto da gente e o empreendimento imobiliário de fato está só na escavação do alicerce, meia dúzia de pedras e três paredes de uma garagem que só garantem parte da metade de tudo.
Imediatamente perguntando o que eu gostaria que ele fizesse, até fiquei sem jeito de lhe pedir já de início uma ajuda na escavação das valas, vai que ele acha alguma coisa de valor enterrada. Mas ele nem deu bola, pegou a direção do traçado inicial e grudou a pá com todo o gás. Quase não tive tempo e nem espaço para onde correr, era terra para todos os lados. E como correr se o terreno ao redor do que seria a casa já estava tão entulhado de muito lixo que ainda que não havia sido despachado? Acho que ele estava me sacaneando. Ah...vai ser assim é? Então me aguarde! Era só uma questão de oportunidade para dar o troco. Já podia ver nesta hora que iríamos nos divertir muito.
Como rendeu! Tenho dito sobre todos os dias em que ele pôde vir. Uma ajuda assim “de fé” faz render mais que o dobro de quando se trabalha sozinho, é o poder indiscutível da união, e melhor ainda quando é alguém de casa, que se tem tanto assunto, histórias e estórias para dizer e ouvir, que o dia acabou, a gente nem viu. Foi olhar para trás e dizer: “Como rendeu!”.
Essa parte de cavar buraco e "coisa enterrada" me levou há muiiittoooss anos atrás quando numa visita na casa da madrinha vc fez um Mapa de tesouro, que dizia bem certinho quantos passos pra direita a partir de....e eu, a manã e as primas procurando, procurando até encontrar em cima de uma pilha de tijolos um "X" e despencando com aquele "morro" encontramos uma bola escondida que já tinhamos procurado antes para brincar, aposto que dessa VC NÃO LEMBRAVA NÉ, rsrs
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