domingo, 29 de abril de 2012


O Arrumador de Guardachuvas

Mais uma vez, aprontando as malas para a viagem, entre roupas, bolachas e outras coisas que depois nem lembro ter colocado na bagagem, com toda a seca que se dá neste período, lá está um guardachuva que havia sido "consertado" há pouco tempo.
Vou contar esta história.
08 de novembro de 2009, ganhei o meu dia!
Disposto a colocar umas coisas em ordem, limpar o pátio, o carro, cuidar de uma plantação de uns 4 pés de aipim, foi um “pretinho básico” pela manhã e vamos ao sacrifício.
Na frente de casa, dando uma geral no meio fio, Carolina, a filha mais nova, me dava uma ajuda maior do que ela imaginava. Um bate papo muito bom, fazia o tempo  passar sem eu perceber, e o trabalho andava rápido.
Estávamos num domingo, era algo em torno de umas 11:00h da manhã quando na rua surge uma figura...tipo assim, "andante". Calça jeans surrada, regata nas mesmas condições, sandálias, uma mochila velha, e parecendo um arqueiro da trupe de Hobbin Wood, trazia às costas um feixe de cabos de guardachuvas.
“Bom dia! O amigo não tem guardachuva pra consertar?”
Olha...tenho sim, dias atrás mesmo, chovia e dos  “morcegos” que tentei usar, um abria depois de não precisar mais e o outro...o que abria, tinha uma vareta quebrada, jogava mais água pra dentro do que pra fora, talvez nem valham o conserto?!  Mas quanto custa o teu trabalho meu amigo?
Pois olha...tanto faz o defeito...eu cobro 3 reais por guardachuva!

Cheguei a duvidar que ele realmente oferecia trabalho em troca do sustento, mas era real...”era 3 real...” e nestas horas, dá vontade de pegar uma pessoa como este “cara”, e como se isto pudesse contagiar mais alguém, levá-lo ao encontro de pedintes, flanelas e tantos outros que apenas...pedem!
Há quem diga que em 2009, por um pouco mais do que este valor, se compre um guardachuva novo. Mas é um pouco mais, produz mais lixo, não ajuda alguém que procura oportunidade, e não proporciona iniciar o dia do jeito que conto agora.
O “Arrumador de Guardachuvas”, além desta habilidade titular, se denominou um hippie, artesão e ambientalista...um verdadeiro amigo dos animais.
Portador de uma inteligência imensa, falou de fatos atuais, sobre poluição e outras tristezas  que assolam nossos planetinha. Esta conversa me fez perder a hora do almoço, deixei minhas ferramentas no chão e fui me envolvendo nas histórias do "Arrumador", que dispensou o conforto de uma cadeira oferecida, para trabalhar agachado na calçada, como ”de costume”.
Natural de Rio Grande, vive por aí o “Marcos Gilnei Castanheira Silva”, ou o “Nei dos Bambuzinhos” como é conhecido na comunidade hippie. Pulseiras e colares na praia é o trabalho de verão....”brincar com artesanato é uma forma de ganhar a vida com algo que me dá prazer...tu já imaginou isto?” Diz ele, surpreso em sua própria satisfação  por trabalhar com algo que nem lhe dá trabalho. Feliz, com um sorriso de poucos dentes, quando muitas dentaduras perfeitas e maduras ainda não encontraram realização alguma em suas atividades, fica-se ainda mais surpreso ao  saber  que o “Marcos” não nasceu em família pobre, apenas em um certo momento optou por uma vida simples, praticando coisas que lhe trouxessem liberdade e contato com muitas pessoas.
Trabalho meticuloso, entre um monte de peças que um dia já fizeram parte de um guardachuva novo, corta um arame aqui, conta uma história de lá, dobra um arame ali, o velho alicate parecia uma extensão da mão do homem rude. Tentei fazer com que sua permanência fosse a maior possível mesmo na hora do almoço, sabia-se lá quando ele estaria por aí novamente, o almoço eu esquentava depois.
O “Arrumador”, entre tanta história, falou que seu jeito simples, uma figura pouco comercial para o olhar popular, faz com que muitas vezes nem consiga apresentar sua proposta de trabalho, e que estava muito feliz por estarmos ali, agachados na calçada, conversando. Claro que me senti feliz também pela nobre observação do homem, em agradecer por ser bem recebido, mas era um homem de conteúdo, eu estava ganhando meu dia!
Trabalho encerrado, o homem precisava partir, outras casas, outra cidade, a praia quem sabe?!
Sou batizado cristão, basicamente sem praticar, mas o "arrumador” disse acreditar naquela força maior e sente que está sempre bem acompanhado.
Paguei o homem com uma enorme satisfação, e como já havia pedido seu nome, pedi um favor: uma foto junto com aquela figura que chegou, pediu por trabalho, e para a mim é digno de exemplo, respeito e registro.
Me despedi do Nei: "vai com Deus amigo", e volte um dia para mais guardachuvas. Venha com tempo para mais histórias, uma chimarrão.
Ele parou por um instante, e apontando em minha direção disse:
"Eu tive um sonho..."
Não falou mais nada, virou-se, e lá se foi o arrumador de guardachuvas.
Acho que era um sonho bom.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O novo emprego  


Segunda feira, o alarme do telefone celular toca bem cedo. Já contei aqui sobre gostar de trabalhar, mas 4:45h...é brabo! 
Um lanche rápido, malas no carro, a turma ainda dorme, uma olhada por toda a casa e um auto desejo de boa viagem...pé na estrada. 
É começo de primavera, estou na segunda semana de trabalho e preciso percorrer pouco mais de cem quilômetros na direção do trabalho que me espera. Vou tranqüilo, pois para esta viagem, rumo a serra, reservo tempo de sobra para não precisar correr, tudo que mais quero, é esticar esta vida ao máximo possível, para tentar fazer o que puder, afinal, "ser feliz é tudo que quer".
Em outro período da minha vida, já havia feito o mesmo roteiro rumo a uma cidade vizinha à esta que vou agora. Um ano e meio de trabalho, raras vezes eu ia no próprio carro. A maioria das idas eram de carona, e confesso que apesar da boa conversa já na saída, depois de um tempo de viagem, ao se instalar o silêncio no carro, vinha a parte ruim, que é pensar na pedra que vai aparecer na próxima curva, aquele mesmo posto de gasolina lotado já bem cedo, naquele "retão" de cansar a vista, ajeitar-se no banco umas duzentas vezes e esperar a hora de chegar.
Mas agora eu sei porque o "magrão" não se incomodava de fazer este trajeto. Estar no volante distrai muito mais, é preciso estar atento ao tráfego, pouco sobra para ver detalhes.
Por isto, já que agora sou piloto de mim mesmo, ir e voltar não têm sido nenhuma pedra no caminho, é preciso ter cuidado, claro, e tudo vai bem.
Um curso rápido para aprender um programa de modelagem 3D, o que me ajudaria muito nos projetos para esta empresa, já que o programa que eu dominava não era o usado por "lá", foi uma boa novidade já no início de tudo. Foi preciso paciência do professor, é verdade, mas nada que na insistência não se aprenda.
E foi neste tranco, duas semanas e já conseguia "me virar" com a nova ferramenta. 

Programas de projeto em 3D são excelentes. Primeiro, porque mesmo em telas de 15 ou 21 polegadas, são representados em tamanho real, segundo, porque passam uma imagem muito fiel dos materiais utilizados, suas texturas, aparências, cores, luzes e sombras. Ao "girar" um produto acabado na tela, deixa muita gente impressionada, chegando a passar a impressão de que se está brincando. Até concordo!
Bem, acabei falando o terceiro motivo, trabalhar com desenho é algo tão bom, que faz um cara apaixonado por esta arte, gostar cada vez mais desta "vidinha".
Reunindo muitas informações, pesquisas sobre o que deveria desenvolver, consultar a área comercial, cliente, uma espiada na concorrência, minha bagagem profissional que já não era pouca, associado ao conhecimento do diretor da empresa, e eu estava armado para a luta.
Desde a primeira linha desenhada, agora seria assim. Era preciso começar um projeto do "zero". Uma boa chance para recomeçar a lida, fazendo cem por cento da obra, e neste ritmo, em uma semana de trabalho, o desenho se mostrava que ainda era meu aliado, amigo, e possivelmente, ainda apaixonado por meu carinho com ele.
Era como uma poesia..

O Desenho e eu
Linhas pensadas...outras perdidas
Traçadas só como base
Para depois serem corrigidas
Curvas suaves...determinadas
Esboços na tela e no papel
Éramos abelha e mel
No enrosco do ofício
Um chamando pelo outro
Cada qual com maior gosto
De fazer com qualidade
Desenvolver algo de útil
A serviço da humanidade

Foi sempre assim. Este trabalho envolve outras rotinas, como definir materiais, contato com fornecedor, cliente, colegas de fábrica e de vendas, algumas viagens, boas atividades, mas a hora de desenhar...o que dizer? Está na poesia...
Neste romance todo, o desenho e eu, fizemos a primeira apresentação, o que rendeu uma aprovação, era uma indicação de que estávamos no caminho certo.

A semana passou e é hora de apontar o carro na direção de casa.
Som no rádio e todo o tempo do mundo para chegar de volta em casa. Esta passagem é da segunda semana de trabalho, mas no momento que escrevo, já se passam seis meses de trabalho, e o que parecia um pouco difícil no começo, agora já tem outro gosto. 


Deixando a cidade, depois de vencido o contrato, aquerenciado, conhecendo ruas, casas, belezas locais, sinto um certo alívio, aquele aperto do recomeço vai se desfazendo, e indo  pela, na passada pelo pórtico da cidade trabalho, já consigo me despedir sem receios de voltar.
O retorno se dá em clima de alegria, entre sustos com a imprudência alheia, ainda bem que predominam os bons motoristas.

Neste trajeto, existe uma especie de "triângulo da bermudas", um trecho onde o rádio só sintoniza a emissora do "bolinho frito"...uma chiadeira de dar dó, salvo quando o motorista sabe o que lhe espera, então é hora de colocar o velho pen-drive.
Com o supra do sumo do pop-rock, vou gastando as curvas dos ouvidos, olho na estrada, e uma cantoria de rachar o espaço.
Terraplanando agora, uma região mais bem servida na captação de frequências, já dá pra tentar uma emissora de rádio, o que também é uma boa pedida. Neste horário, uma turma de comunicadores faz uma hora de programa em que se ouve um infinidade de bobagens, o paraíso para relaxar os maxilares, tudo que tenho a fazer é ficar atento ao trânsito e deixar a pista me levar.
Chegar são e salvo, acionar o portão, estacionar lentamente e desligar o rádio, tirar o cinto de segurança, abrir a porta do carro, descer e encontrar a família, é ter a certeza de que vida é boa e que todo sacrifício vale a pena.
Descarregar o carro é rápido. Uma grande mala preta com rodinhas, saiu organizada e volta numa bagunça geral. 

É tanta coisa pra conversar, parece que o fim de semana será pequeno, tanto riso, mas o que  não poderia ficar de fora era "a casa do pai". Notícias da construção são reveladas com detalhes, melhor que isto só indo lá ver. E é logo ali...dez passos separam a nossa casa do que em breve será a moradia do velho pai. E este fim de semana tem um sabor especial, o pai vem outra vez ver como as coisas estão, e não bastasse sua presença com ares de festa, ele tem colaborado e muito para a sequência da construção, trazendo uns trocos, e agitando o ambiente.
Visto com os olhos, tudo que os ouvidos já sabiam, era hora de entrar e ver o que tinha para o jantar, e nesta confraternização misturada com o alarde, e conversas cruzadas, um olhar mais observador e vejo pela casa decorada com o rastro do que trago na volta.
Amanhã o pai estará por aqui e passamos um tempão tentando adivinhar sua reação ao ver o estado das coisas.
Na última vez que ele veio, tudo estava parado por várias semanas, do jeito que meu irmão e eu deixamos quando optei dar um tempo nos trabalhos até que conseguisse encaixar um novo emprego. Traduzindo: paramos ao chegar com as paredes no final, deixando algumas ferragens de vigas prontas para serem concretadas, brita espalhada por dentro da casa esperando pelo contra-piso de cimento, e era isto, mesmo que parecesse pouco, foi o que pudemos fazer praticamente com pouquíssima grana, o mínimo tempo disponível  e muita força de vontade. Só que para este fim de semana, o pai teria uma visão pra lá de satisfatória:
Telhado instalado, contra-piso pronto, reboco interno acabado e por fora quase. Esperas para tomadas e interruptores definidos estavam espalhados por todos os lados, não havia parede sem opção de ligar algum aparelho. Muitos recursos que faltaram na nossa casa, e que só com o tempo e a necessidade vimos que era a oportunidade de botar em prática algumas idéias, que em grande parte, nem chegam a custar mais caro.

Com muitas novidades para mostrar, era só aguardar a chegada do pai no outro dia e apresentar cada canto da casa como um cicerone conduzindo um turista pelas maravilhas de um lugar que o próprio guia idealizou.
A visita anterior do pai, havia sido bem breve, nem cheguei a registrar algo, mas a de amanhã, esta não me escapa da escrita.

domingo, 1 de abril de 2012

Retomando a obra

Uma semana em casa era a folga entre sair de uma empresa e entrar na outra. E agora estava apto a retomar "a casa do pai", aos menos a parte da construção.
Fazer as pazes com a construção, aquela conversa secreta, coisa de maluco:
- Ei...casa...vamos retomar? Estou partindo para um novo desafio e acho que vamos poder colocar um construtor de verdade em tua continuação, possivelmente com um ou
mais ajudantes.
Foi só "botar os cachorros no mato" e lá tínhamos um orçamento que aprovei, vindo do construtor Jorge Inácio. Tinha que ser Jorge outra vez. No capítulo "O mestre Machado", o dono deste sobrenome também era "um Jorge".
Destino ou não, posso afirmar que os “Jorges" chegavam ter a mesma aparência, o mesmo tipo de "beleza", aquela da simplicidade, da graça de viver, da sugestão, de ouvir e de falar. Salvo o gosto musical, o primeiro escuta Pink Floyd e o segundo vai de Luiz Marenco. Para mim estava perfeito, ouço e conheço ambos estilos.
Combinado o início da obra, isto coincidia com meu trabalho na nova empresa, o que também rendeu muita pesquisa de moradia, pois precisaria me hospedar durante a semana na cidade da serra gaúcha onde estava o trabalho.
Uma expectativa generalizada, o que será que me espera nesta empresa? Como será que vai se desenvolver a construção lá em casa?
Queria antes de viajar a trabalho, ter tirado do galpão, tudo que pudesse guardar dentro de casa, mas não deu tempo, e nem precisou. Estes caras estão tão acostumados a construir, destruir e remontar, que no primeiro fim de semana de volta em casa,  pude ver que o construtor e sua trupe, desmontaram o telhado do galpão, retirando tudo que havia lá dentro, e fizeram uma réplica em miniatura do velho galpão. Digo "réplica", porque a aparência era a mesma, tudo amontoado, coberto por telhas e lonas, ainda consegui chegar a ponto de conhecer a equipe em plena atividade de encerramento. Guardavam as ferramentas em baixo deste modelo arquitetônico provisório, com certa seqüência de operação, tudo se encaixava no devido lugar, com direito a um dispositivo de alarme antifurto, com latas velhas e arames, acho que iria funcionar muito bem, eu tinha medo só de olhar.
Sempre vi com bons olhos a evolução de cada fim de semana em que eu e meu irmão grudávamos na obra como se fôssemos terminar tudo naquele domingo, mas quando olhei o que havia sido feito em uma semana pela "Mr. Inácio Corporation"... não poderia pensar em outra expressão: "Como rendeu".
Neste momento, vi que não seria fácil "alimentar" de cimento aquela turma.
Capricho, mais um voto a favor. Dia encerrado, tudo varrido, ferramentas guardadas, uma prova de organização e de que tudo correria muito bem até o fim do "contrato".
Um conversa rápida com o Sr. Jorge, acertando alguns detalhes, tentei deixá-lo bem tranquilo, aceitando suas sugestões para corrigir ao imperfeições que meu irmão e eu tivéssemos feito.
Mas o Jorge, um poço de tranqüilidade, já sabia onde estavam os defeitos, e tinha experiência suficiente pra corrigir ou minimizá-los.
O "bicho velho" era bom mesmo, tinha solução para tudo. Já podia prever que encerrando a obra iria sentir falta deste rapaz.
Neste período de obra, meu irmão e eu ligávamos um para o outro regularmente,  agora mais ainda, pois ele  queria saber quando retornaríamos à construção. Em um destes fins de semana, em que ele esposa e o pequeno Hector nos visitaram, a primeira coisa que o brother quis ver era a casa do pai.
Por um bom tempo olhamos juntos o que havia sido feito na primeira semana de trabalho com a equipe do Jorge Inácio, era notável e lógico que pareciam ter feito muito mais em uma semana corrida do que tudo que fizemos nos últimos meses em que trabalhamos só aos fins de semana, com menos gente e prática. 

E assim, bateu a tristeza no meu parceiro de obra.
- Poxa...então não vamos mais fazer o resto da casa do Pai?
Esta tocou fundo. Sua  indagação tinha o mais sentido pesar de poder estar perdendo a participação onde da mesma forma que eu, ele queria mostrar sua gratidão ao nosso Pai.
Eu lhe disse: irmão amigo, o que fizemos até agora não foi pouco, olhe pelo lado bom, agora há uma boa chance de acelerar as coisas, ao menos até um certo ponto, isto ajuda a trazer o pai mais rápido.

sábado, 24 de março de 2012

A virada - Trocando de Emprego - continuação
Volto ao telefonema, onde finalizei marcando um almoço com o diretor da empresa.
A partir daí, a expectativa foi grande. Acreditando no velho ditado "quem procura acha", estava ali, a oportunidade tão procurada.
O almoço foi na minha cidade, dias depois uma visita à empresa, cem quilômetros estavam por separar outra vez, meus dias de trabalho da vida em família.
Passam-se alguns dias e vem a proposta, bem razoável, não dava mais para voltar atrás.
Esta interessante opferta, colocava em minhas mãos, a chance de trabalhar em uma empresa que vivia a flor de sua juventude. Com poucos anos de fundação, esta organização tinha uma expressão de venda em seu segmento de mercado e um reconhecimento positivo pelos produtos fabricados, que resultavam em excelentes atrativos.
Um fim de semana, foi o tempo que tive para dizer sim,  traçar um plano para propor um desligamento sem que isto pudesse abalar muito a empresa atual. Folhas de papel, calendário, listei os principais trabalhos e pensei nos principais "segredos do ofício" que poderia passar aos colegas, realmente não queria causar nenhum grande dano.
Do momento em que anunciei o pedido para deixar a empresa depois de tantos anos, muitas coisas se passaram até conseguimos negociar um espaço de tempo intermediário ao que as duas partes julgavam ser ideal.
A despedida...ah a despedida....
Nada fácil quando se trabalha por muito tempo, com muita gente boa, perto de casa, e talvez o principal, fazendo o que se gosta. Apaixonado na verdade por tudo que expresse arte, criatividade, tenho no desenho uma das maiores fontes satisfação ao expressar meu ponto de vista. Muitas vezes, traçando algo longe do meu alcance (em casa) ou da realidade do conceito (no trabalho), mas as tentativas fazem parte da concepção geral e do resultado, os testes vão acontecendo até que a criação final aparece.
Por isto tudo,
Despedir-se aperta o coração,
Desenho, amigos e chimarrão
Bom dia...boa tarde...
Voltar pra casa enquanto o sol ainda arde
Certeza que no outro dia
Tudo igual se encontraria
Clientes felizes...outros nem tanto
Projetos na mesa...peças atiradas num canto
Almoço festivo...comemoração
Por isto tudo,
Despedir-se aperta o coração.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

CHIMAROCK
Variando entre duas ou três pessoas, nunca menos de um, já vínhamos tomando o bom chimarrão, diariamente à rigor.
Na empresa, assim que soava a sirene do meio dia, para nunca envolver  o sagrado tempo do trabalho, poderíamos no máximo já ter a água aquecida para preparar o "mate", tudo em favor do motivo que reunia agora "amigos" com alguns objetivos, principalmente...rir.
O grupo ia aumentando sensivelmente com o passar dos tempos, assim foi preciso buscar um novo espaço. Uma sala neutra, livre para o grupo e sua prática viciosa, estes encontros  poderiam ter sido tranquilamente transformados em um programa de rádio. Integrantes fixos, éramos uma meia dúzia de cinco a sete , mas chegávamos facilmente a umas doze ou quatorze pessoas na "salinha", e quando se anunciava uma pizza então...cruzes...o mundo era pequeno para tanta conversa cruzada. Nunca havia pensado antes disto, que ouvir uma gritaria pudesse ser tão bom. Durante o trabalho sempre gostei de pouco ruído para preservar a concentração, para poder viajar nas minhas criações, mas no templo do chimarrão tudo era permitido. Histórias simples, outras bem "lôkas", casos tristes acabavam em alegria, sem desprezar a gravidade de alguns fatos contados, mas o grupo era assim, alegria era fundamental.  Ocupando a primeira meia hora do horário do almoço, este grupo fez involuntariamente, o que de melhor poderia fazer para conviver com a crise. Colegas de trabalho, a partir deste momento, assumiam o espírito CHIMAROCK. 

Nomeado e instituído inicialmente como um momento de falar nada sobre trabalho, quem contasse uma história, de autoria pessoal ou não, de maior efeito a arrancar risos, tinha o conceito elevado e seria sempre ouvido com muita atenção.
Esta meia hora chegava a ser curta para tantas histórias  a serem contadas, a qual emendávamos com o almoço, melhor ainda, o almoço já não era suficiente. Era comum ficarmos no restaurante da empresa até o último instante antes do apito que avisava: "voltem a realidade...amanhã tem mais".
Conto isto com uma satisfação tal, a ponto de acreditar que o horário de almoço nos dias de trabalho, não podem ser um momento sem sal e sem açúcar. Penso que devemos permitir conversar bobagens, dar as risadas que não cabem durante o expediente e muito importante nestas horas, saber falar e também ouvir, contar histórias olhando os olhos de cada um na roda de mate ou na mesa de almoço, e perguntar...perguntar como foi o dia, o jogo do amigo, as músicas que ele ou ela gosta, se conhecem alguma solução para algo que pretendemos fazer, um bom livro que se leu, um livro ruim que não recomendamos, alguém aí pode indicar um livro? Escutar pode ser tão prazeroso ou mais que falar. Nossa experiência já está adquirida, a do outro eu ainda não conheço, e se esta permissão da fala for propiciada e justa, o ganho é inestimável.
Casos de morrer de rir, mesmo quando já estava de volta em casa, não foram poucos, tentarei lembrar de algumas passagens.
Jeferson (PC), contou "certa feita", que um gambá lhe tirava o sono e também os pedaços do forro da casa. Analisando a situação e a vizinhança que bem conhecia, resolveu que chamar os bombeiros para recolher o bicho era um procedimento que causaria menos alarde que a manobra de puxar escada, encostar na casa, arrancar telhas, e pior ainda, convidar o hospedeiro a se retirar, assim sem conhecer o idioma local, sem ordem judicial e nem sequer um pirulito de chamariz...o jeito era pedir ajuda mesmo.
É bem possível que nosso amigo "forest gump"  tenha contado uma história muito detalhada aos bombeiros e pintado o diabo pior do que de fato ele era. Instantes após a ligação e a frente da casa foi tomada por algumas viaturas, com direito a escada telescópica, e giroflex, somem a isto a penumbra do anoitecer onde as luzes são mais bem vistas, e o nosso amigo se saiu pior que a encomenda. Antes ele tivesse usado sua escadinha e o pirulito.
Marcio era outra figura ímpar. Colega de muitos anos nesta empresa, conversava com tamanha calma que dava nos nervos, ainda mais quando além de devagar na fala fazia algumas pausas, deixando o expectador confuso: ele terminou, esqueceu, dormiu ou morreu? Pra completar o conjunto da obra, o caminhar do sujeito era (e é...) tão pausado quanto o ritmo da fala. Dá pra dizer que ele não caminha, mas que desliza va-ga-ro-sa-men-te por onde passa. Certo dia, contou sobre um atrito dentro da fábrica, demorávamos a entender que ele pudesse estar falando de algo parecido com uma discussão. Sua narrativa beirava a uma explanação de dicas de bom relacionamento, mas ele se conhecia muito bem. Disse muitas vezes: "Hoje estou meio irritado...se eu me incomodar mais um pouco...eu durmo".
Itamara, personalidade do RH da empresa era o norte da roda de mate, ponto de equilíbrio para a conversa não degringolar e virar baixaria, afinal, uma prenda no ambiente, inspira respeito. Só que com esta turma era difícil, a nobre colega em uma ocasião destes mates, entrou na sala, tomou uma cuia de chimarrão e correu para o banheiro, anunciando que ia voltar, saiu ligeirinho. Estava mesmo com pressa, pobre amiga. Sem óculos, demorei a entender o que via, na primeira olhada, algo estava pendurado na frente da sua calça jeans. Neste dia ela fora a única mulher do chimarrão, olhamos um para o outro, menos para ela, que se aproximou e clareou a visão do que era uma fita amarela que deveria ter ficado para dentro da calça jeans, revelava que a colega tinha bom gosto, mas pouca precaução. O riso corria frouxo, pensamos em ajudar e falar, me levantei, mas faltou coragem, desconversei e voltei a sentar. Jeferson dizia de cantinho que deveria ser um tipo de cordinha anti-pânico, do tipo: " em caso de emergência...PUXE!"
Neste embalo, subimos a rampa de acesso ao restaurante da empresa, ela sem entender, nós sem saber a extensão da fitinha, até que na fila do almoço, fui ficando para trás junto a ela e falei baixinho: "tens uma cordinha na frente da calça"...
Minha amiga um tanto encabulada, se virou de costas e consertou rapidinho o que causou tanto comentário. Eternos meninos são fogo!
Tem o Marcos, sempre com a história do Rock Gaúcho na ponta da língua, criador do nome do grupo, nosso técnico em segurança do trabalho, eu costumava dizer que ele era o guardião da empresa, sempre zelando pela integridade da turma, eis aí uma profissão humanamente nobre.
Murilo, que contou casos particulares pra lá de interessantes, muitos envolvendo personagens familiares, não perdia a chance de pregar uma peça nos outros, criou uma caderneta chamada "memórias da engenharia". Um livrinho onde ia escrevendo os acontecimentos mais curiosos, acabou ficando comigo (o livro).
Estrelas móveis, entre tantas que frequentaram este momento cultural, ao longo de quatro anos, um destaque especial ao Sr. Anselmo Rocha, assinava como "A. Rocha", só de ler o nome dá pra ter a certeza que o nome é igual ao dono, uma fortaleza.
Forte em muitos sentidos. O bom dia mais forte que já ouvi, sua imponente saudação ao entrar na sala de projetos, muitas vezes me tirou do estado de êxtase dos meus pensamentos criativos. Corredores silenciosos eram um sinal de que A. Rocha estava fora. Em dias frios, era comum se apresentar  usando um Chapéu de lã, daqueles macanudos. E suas histórias eram de se perder na imaginação. Viagens, palestras, um conhecimento invejável. Quem teve o privilégio da convivência saiu no lucro.
Eu estive fixo estes anos todos, mas pra encerrar o relato do grupo, posso dizer que contei algumas histórias, tive o prazer de criar a musica do grupo, contando um pouco disto tudo, desenhei o símbolo do grupo CHIMARROCK, que impresso em camisetas e gravado em cuias de  chimarrão, registrou  de um modo físico o que já estava fundido em nossas cabeças, éramos e somos um grupo de amigos, que vai muito além dos nomes citados, quem participou está na memória, e assim seguimos rumos diferentes, falando eventualmente, sempre no mesmo ideal CHIMARROCK...♪♫ é chimarrão e rock ♪♫.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Teste explosivo
 
O dia ainda não havia acabado, poderíamos esticar um pouco mais, mas resolvi encerrar ainda cedo. Meu irmão fazia uma velha brincadeira. Com um isqueiro ele injetava uma quantia de gás dentro da mão semiaberta, acumulado, este gás era queimado acionando o mesmo isqueiro, abrindo a mão, formando uma chama breve.
Imediatamente lembrei-me de uns vídeos da internet, onde os caras usam uma lata de aerosol teoricamente quase no fim, colocam em um lugar seguro, enrolam umas voltas de papel na lata, tocam fogo nos papéis e de uma certa distância, aparentemente segura, disparam um tiro com arma de pressão na lata. Pelos vídeos viam-se chamas fantásticas (eu gosto do fogo lembram?), pois mesmo o resto de gás de um aerosol destes, está lá com alguma pressão interna, o furo do chumbinho na lata, libera o gás pela fissura que é imediatamente inflamado.
Nestes vídeos aconteciam de tudo, chegando até a acontecer nada também. Mas já que o assunto era “fogo”, e o pai não estava mais lá pra dar bronca nos seus “guris”, partimos para a brincadeira. Lembrei que eu ainda deveria ter um aerosol no galpão. Procura, procura, lá estava: “Fluido para isqueiro”.
Agora eu viajava na história, e não daria para deixar de contar:
Há muitos anos, um grande colega de trabalho, eterno amigo, cultivador de bons hábitos sociais, esportista, apreciador de bom rock e de motos,  Bruno Wagner, um grande escritor de fato, entre tantas histórias escreveu e repassou aos amigos experiências fantásticas, viagens de moto pela América do sul, baseado em experiência igual de seu ídolo “Neil Peart”, baterista da banda RUSH, Bruno também era um apreciador de charutos.
Quando trabalhamos juntos nesta empresa que me encontro atualmente, depois do almoço, um grupo de amigos sempre acompanhava Bruno em sua habitual caminhada. E tinha que ser conforme estipulado na lei do “caminhador”, até um ponto determinado, para valer em dobro, pelo hábito saudável e pela conversa que este momento propiciava. Eu me sentia o legítimo Johnnie Walker, e a coisa virou vício.
Nestas caminhadas, entre uma variedade de assuntos, Bruno falou tantas vezes das experiências com charutos, que em determinado momento me vi em um balcão de tabacaria da minha cidade, escolhendo o tal charuto, sem nem mesmo ter idéia do que me esperava.
Um pouco assombrado com a variedade de tipos e preços, optei pela média, para não me decepcionar com o sabor, muito menos com o valor.
Cheguei em casa com o “bagulho” escondido, e já me sentia um transgressor, quase um dependente, do prazer de ter algo a esconder, mesmo que sem importância alguma.
Cruzes! Que fedor é este? Foi o que eu lá da rua, ouvi gritarem de dentro de casa. Caramba, me escondi para praticar o ato ilícito, mas a fumaça me denunciava. Minha esposa, especialista em sabores e aromas jamais deixaria passar sem perceber uma queima diferente nas redondezas da propriedade urbana.  Foi ver o que era, por que eu não contaria. Ela não acreditava. Estás fumando? Siiiiim! Resposta de quem é pego com “o charuto na boca”...cara de guri arteiro. Rir era inevitável, e para encurtar esta noite de crime, tive que apagar o “crivo” e fui recolhido a Delegacia da Patroa.
Os próximos dias seguiam com variadas tentativas, entre marcas, tamanhos e valores. E assim como muitas coisas na vida, é na persistência que se descobrem grandes sabores. Já havia identificado o sabor que meu paladar aprovara entre todos os experimentados, e já possuía um kit, que não passava da caixa de charutos, um isqueiro desses quadrados em chapa metálica e um spray de gás fluido para abastecer o isqueiro. A família passou a encarar minha prática como um saudável desfrute no finalzinho da tarde.
Uma fumaça branca e espessa, e nesta atmosfera eu revia o dia, pensava no próximo e lembrava de um grande amigo.
Sentido pelo fato de que bons amigos no trabalho, raramente permanecem por uma eternidade nesta companhia diária, depois que nos afastamos pela ligação do trabalho, continuamos até hoje no contato eventual, mas verdadeiro.
Agora que está explicada a origem do spray encontrado, vamos ao teste explosivo.
O dia está acabando, e é preciso preparar material de segurança (balde com água), rota de fuga (tirar as ferramentas do caminho) e revisar o armamento. A velha espingarda de pressão estava um caco, ainda bem que achamos os chumbinhos, pena que eu derrubei todos no chão, no meio do barro, e agora era correr para recuperar alguns, limpar a munição e tentar o efeito estufa ainda antes de escurecer.
Onde fazer? Tinha que ser um local seguro, já tinha visto naqueles vídeos, alguns testes que nada acontecia, mas outros por sinal, davam um estouro com uma bela língua de fogo, sem contar que o spray poderia se projetar em alguma direção.
Vamos fazer dentro do galpão disse meu irmão. Sim...respondi, e botar fogo em tudo! Já estava demorado de construir, imagine refazer as coisas depois de um incêndio.
“Onde tem dois guris brincando o diabo não cruza”, assim diz um ditado, e não é de duvidar. Duas almas jovens estavam prontas para fazer uma arte que há anos eu não fazia. A idéia foi colocar tudo em baixo do andaime, encostado em uma parede, dentro da parte nova da obra. Paredes de todos os lados, se voasse para cima, bateria em baixo do andaime.
De que valeria um teste de lançamento sem registro? Câmera do celular na mão, também poderíamos provar quem nem só a NASA vive de testes frustrados.
Filipe pegou a espingarda, eu me encarregava do fogo, "gosto...gosto". Mas era atear a fogueira, fazer a volta, e do outro lado da parede, através do que viria a ser a janela do quarto do pai, fazer a filmagem.
Três ou quatro tiros e o brother provou ser o pior atirador de elite que o capitão Nascimento já viu. Ela pega o celular, me dá a arma (de pressão), e por incrível que pareça, no primeiro tiro, uma labareda espetacular emerge da lata de aerosol. Da pressão liberada da lata, associado à visão imediata do fogo, em um reflexo instantâneo, chegamos a pensar que ele não teria captado as imagens. Sabe como é reportagem sensacionalista: “Eu quero as imagens!”

E estas foram registradas sim, com a clareza dos 2 mega pixels do equipamento disponível, rendendo várias visualizações, de nós mesmos.
O departamento de segurança entrou em ação, apagamos o fogo, e apesar de chamuscar um pouco o velho andaime, correu tudo como previsto. Foram muitas risadas, tão bom mesmo, que nesta noite eu acabaria por ir para cama, cansado do trabalho, mas de alma leve, por ter sido criança mais uma vez.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Domingo de folga – Churrasco e Parque

Confesso que como churrasqueiro, sou um ótimo fazedor de fogo...mesmo assim, não podia recusar tal solicitação diante de tanto carinho da parte de meu irmão e de sua esposa. E afinal, havia um grande prêmio em ir lá, o sobrinho Hector que eu não via a algumas semanas...ele com a pele tão suave, eu de barba feita, era a fome e a vontade de morder.
Pega o pequeno, larga o pequeno, pega um copo, larga o copo, corta a carne, tem espeto? coloca o sal, o carvão já pegou fogo? dá a farinha, conversas cruzadas...cruzes!!!! Já pensou que confusão? Beber o sal, pegar a carne no colo, jogar farinha no pequeno, espetar o carvão, conversar com o fogo...é demais pra minha cabeça.
Cada um cuida um pouco, do menino e do churrasco, assim íamos dividindo a culpa se algo não desse certo, menino mijado ou carne queimada...até que o churrasco ficou pronto.

Depois do almoço, lamentamos muito, mas fomos expulsos da cozinha, rumo à sala, onde recentemente ele havia instalado uma mesa de sinuca...se tem um jogo que gosto, é a sinuca...
Ali passamos um bom tempo, na volta da mesa que agora liquidava com todo espaço que minha cunhada tinha na sala. Esta mesa era uma relíquia que acompanhou meu pai por todo lugar que ele já havia passado, e foram vários. A mesa sobreviveu a mudanças, enchentes, reformas. Já foi suporte pra tudo que se possa imaginar, e agora, na casa do brother, era o primeiro móvel do pai que vinha, anunciando que logo mais, o pai também estaria por aqui.
Jogo ganho, louça lavada, um bate papo sobre a vida e a cunhada faz mais um convite:
- Poderíamos ir passear no parque da redenção em Porto Alegre...o que acham?
O papo estava animado, neste embalo, lotamos nosso carro, e lá fomos nós em direção ao parque Farroupilha. A tanto tempo morando na região e ainda não conhecia um dos parques mais famosos da capital.
Dei a direção do carro à cunhada, para que eu pudesse ir gravando o caminho, mas não foi desta vez. Ela mal ligou o carro e parecia que já conhecia a máquina. Foi uma velocidade! Eu tinha que lembrá-la que tinha bebê a bordo, e era o filho dela. Assim não dá para cuidar do caminho, só cuidava do carro a frente.
Dobra aqui, ali, em pouco tempo estávamos no Parque. Desce a turminha, deixa que o pequeno eu pego. Já na entrada passamos pela área de comércio. Plantas, artesanatos, penduricos que não acabam mais e espaço...muito espaço. Tempo bom, apesar do frio, reunia uma multidão. Mesmo assim caminhar pelo parque era tranqüilo, sem cogestionamento.
Punks, emos, negros, brancos, vermelhos, hippies, e nós. Quem souber onde a gente se encaixa...me avise, quero fazer parte de alguma tribo, dos normais?
Atrações humanas, entre performances de malabares e vestimentas tão exóticas, tudo isto é o que faz o parque ser o que é. Espetacular de ver, de ouvir, de sentir.
Lago a vista! Falou meu irmão querendo de imediato se atirar sobre um daqueles barcos movidos a pedal...a filha Carol também queria, então o jeito foi deixar as “crianças” irem.
E assim findava odia. De volta ao carro, peguei a direção por que estava cansado...de levar sustos....

...Assim fizemos os quase quarenta quilômetros de volta, lembrando o espetacular domingo de folga. 
Os pedreiros mereciam.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Hora da Bóia - Testes na cozinha
Almoçar depois de uma manhã puxada, para meu irmão e eu, era um momento especial. Da cozinha de nossa casa, já se provou em família as coisas mais incríveis que eu já vi. De ovo frito inteiro, farinha que vira pão, até até os pratos mais elaborados e enfeitados que já conheci.
Fico perplexo com tamanha habilidade, pois me compete a falta de jeito na cozinha. Até consigo colocar água nas forminhas e faço um gelo muito bom, mas de resto...
Certa vez vi na TV, um famoso chef de cozinha, "Olivier", preparando um prato que usava ovos, era um truque excelente. Com apenas uma das mãos, segurava o ovo de galinha, quebrava e separava as duas metades da casca deixando escorrer totalmente clara e gema para dentro de um recipiente. Não tive dúvida, na primeira oportunidade tinha que tentar. Vamos lá: pego o ovo só com uma mão, dou uma batidinha nele sobre o balcão que está ao lado do fogão com a frigideira já no fogo...e...”abracadabra!”.
Meu truque foi mais que perfeito. Não só quebrei o ovo com uma mão apenas, como também fiz sumir o que havia dentro dele. Cheguei a pensar que era um ovo vazio, afinal, um pinto não poderia sair voando tão rápido assim, enxergar eu ainda conseguia fazer bem. Um olhar mais atento, percebi que o miolo do ovo se esvaiu entre o balcão e o fogão, fazendo a maior meleca.
“Não tá morto quem peleia”, dizia novamente o cara que também não sabia quebrar um ovo e que depois tentou fazer um pão, pois eu também tentei.
Um dia desses, minha esposa não estava em casa, apenas eu e as meninas, olhando TV, quando Olivier, aquele mesmo, preparava um pão caseiro. Aquilo era de dar água na boca e asas à imaginação. E nós estávamos com o laboratório livre, a disposição para pequenas explosões e outros testes com fogo.
Vamos fazer um pão? A pergunta foi respondida em coro pelas duas: “Vamos!”.
“Simbora” pra cozinha. Panela, pote, rolo de massa, colher, Farinha, leite, ovos e...fermento? Mas qual era o fermento indicado mesmo? Internet! Isto é uma maravilha moderna, Juliana foi designada a secretária do centro de pesquisa de introdução ao teste nuclear de agrupamento atômico. Átomos de Farinha no agrupamento com outros ingredientes. Em frente ao computador ela foi ditando cada componente do bendito pão enquanto Carolina e eu conferíamos. Mas a dita receita só definia “fermento para pão”, e nos envelopes ou frascos que tínhamos em casa, não se lia “Fermento para pão”, ou era biológico, ou era químico. Corri até o armazém mais próximo e pedi: “fermento para pão” por favor! Tu queres o fermento biológico? É muita sacanagem! Eu corro para um armazém justo para ter o fermento adequado, e parece que o dono quer que eu diga que não sei. Zé...eu quero fazer um pão, e não sei qual é o fermento (pronto...confessei), e lá voltei eu para casa com um fermento na mão que até hoje não lembro mais o que era, só sei que era muita vontade de fazer o pão.
Ingredientes a disposição, era só botar a mão na massa. Em algumas ocasiões, já havia ajudado minha esposa a esticar estas massas com o rolo, e apesar de bem atrapalhado na cozinha, depois de ter a massa pronta na mão, eu até que me virava bem nesta operação. Mas desta vez, eu e as filhas inventamos de fazer tudo, na ausência de quem certamente sabe o que faz na cozinha.
Um quilo de farinha para um único pão era suficiente para  a baderna que estava para acontecer. Nada de pães pequenos, tinha que ser um grandão. Todo mundo sabe no que dá ter olho grande. Um volume desses de farinha, mais o resto de: fermento, água, um pouco de sal, um pouco de açúcar...é muita mistura pra quem já faz confusão só com um ovo de galinha.
Aquele quilo de farinha tomava uma proporção descontrolada. Somado a isto, tinha mais a farinha que era polvilhada na bancada, para deixar a massa mais...sei lá o quê, mas é assim que se faz. Só sei que a bancada de um metro quadrado estava ficando pequena, e sobre ela haviam misturas que eu nem lembrava de ter usado, e ainda nem havíamos colocado fogo no negócio. Caramba...o forno! Qual seria a temperatura? Mas eu não poderia ligar pra ninguém, tinha que ser um projeto independente, só eu e as meninas. Nesta hora ninguém parava de rir. Pisávamos em farinha, elas diziam: Acho que a mãe vai te matar! Eu tinha certeza, mas primeiro tinha que acontecer o tal pão. Esperamos uns minutos para a massa descansar, e descansamos junto com a massa, preferia estar fazendo uma parede de tijolos. Filha, varre o chão antes que a mãe chegue. A vassoura ficou um espetáculo, as cerdas escuras, ganhavam agora um tom grisalho e talvez fosse com esta arma que ela iria me bater. Mas seria divertido ver saltarem nuvens de farinha de uma vassoura em ação.
Finalmente a gororoba foi pro forno. A mais ou menos um monte de graus de caloria, só de abrir a tampa, percebia-se que era a temperatura perfeita. Vai meu filho (o pão), vê se cresce o suficiente para nós três não passarmos vergonha, mas não muito pra não estragar o forno.
Foi um filme de uns quarenta minutos. Tela plana e quente, o ator principal era um pão mesmo. O bicho velho ia crescendo como todo galã de cinema no decorrer do ato, diante de uma platéia apreensiva, imaginando a tristeza que seria quando a dona do pedaço chegasse.
Finalmente o assado chega ao fim. Cumprido o tempo recomendado pelas leis do pão caseiro, no que constava o artigo único da internet, abrimos a tampa e demos as boas vindas ao objeto criado a seis mãos. Eu tinha que dividir a culpa, e as meninas eram pura diversão, sempre fizeram isto em situações parecidas.
O formato circular, o tamanho generoso, aquele quilo de farinha rendeu o que se poderia comparar a uma grande tartaruga. Se tivesse rodas poderia facilmente virar um fusca. Assim ficou aquilo que eu só queria que fosse...um pão.
O gosto...bem, não se pode acertar todas, mas errar o ovo e o pão ninguém merece. Era um gosto que lembrava muito a farinha, não sei por quê. Mas nada que com fome e uma misturinha não desse para engolir.
E então ela chegou, sentiu o cheiro, olhou a obra, deu risada e nos deu parabéns. Talvez fosse pela satisfação, na certeza de que por enquanto, não haveria concorrência.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Visita do Pai
O rendimento do último fim de semana, com a ajuda do meu irmão e seguido da ajuda da filha, foi notável quando no próximo sábado, meu irmão se apresentou no canteiro de obras da construtora: “A Casa do Pai”. Ele ficou espantado, quase esquecendo que maior parte de tudo que via era fruto de sua colaboração no fim de semana anterior. Estava funcionando, eu fazia o possível para realmente dar esta impressão à ele, de que as coisas não andavam só quando ele poderia vir. Achava que isto seria também motivador para ele e era mesmo. Bah mano! Assim vamos terminar rapidinho. Eu sempre concordava, mas pelo calendário, ainda levaríamos um bom tempo eu pensava.
Mãos a obra, porque neste sábado, tijolos vão para o seu lugar. Não sabia quantos, mas colocaria quantos a minha lembrança sobre esta técnica permitisse. O Tijolo fundamental estava lançado, pois a primeira pedra já estava em seu lugar junto com todas as outras. E foi num “tranco” lento, que fechamos o dia com uma parede de uns seis metros e seus três tijolos de altura..sempre rolando muita conversa, histórias do próprio pai, e durante este dia, como o assunto era colocar tijolo, alcançar tijolo, quando encontrei um pedaço de isopor enterrado, bem sujo, parecendo um tijolo ou uma pedra, pensei: agora é a minha vez! Forcei uma condição, de precisar lhe atirar alguns tijolos para que ele fizesse uma pilha, e no meio desses, lá se foi arremessado aquele pedaço de isopor...mas para ele era um tijolo. E correr para onde? se a nossa volta tudo ainda era um amontoado de restos de  paredes quebradas, e todo material que saiu da escavação.
O ministério da brincadeira malvada adverte: Não faça isto sem conhecer bem seu parceiro, seu humor, sua reação e a rota de fuga que este terá como opção ao se desviar de um objeto arremessado em sua direção. Eu disse que pegava ele.
O conhecido retorno de meu irmão à sua casa e a “pegada” solo no dia posterior, se dão novamente iguais, mas neste domingo, depois de quase uma hora de preparação ao início dos trabalhos, um chamado na frente de casa foi uma grande surpresa. O homem do livro, razão da obra construída e da obra escrita, meu pai aparece lá em casa. Achando que encontraria os dois filhos com a mão na massa, errou o dia e meu irmão infelizmente perdeu a chance de ver o pai, que pena. Um grande abraço no pai, desses que se dá em alguém que se ama, e que apesar de conversarmos com uma freqüência razoável ao telefone, a presença do pai é praticamente um evento. Anunciando de chegada, que era “jogo rápido”, o pai se apresentava bem vestido: de calça social escura com friso, botas novas, uma jaqueta combinada com o resto e com o frio também, literalmente como poderiam dizer algumas senhoras: “Um gato”. Mas era só uma passadinha, para ver se ele apesar de não poder estar fazendo esforços maiores, por questão  de saúde, poderia ajudar em alguma coisa, como alguns trocados para contribuir na obra. Ora pai, temos um bocado de material de construção aqui, Filipe me dá uma mão aos sábados, os domingos também estão sendo trabalhados para chegarmos ao final o mais rápido possível, então, gastos com mão de obra é zero, e acima de tudo, quanto pagamos ao senhor por nos ter mantido em casa até seguirmos nossas vidas?
Convencê-lo de que neste momento não era necessário um apoio financeiro, era tão difícil quanto sua permanência longe da gente. Não teve jeito, do fundo bolso, ele retirou um saco de papel, tipo estes de pipoca, mas de cor parda. Ali estava um valor equivalente a mais de vinte sacos de cimento. Não fiz corpo mole, aceitei aquilo que meu pai trouxe com o meu nome escrito..ou era o nome dele, sei lá, sei que trouxe com muita gratidão pelo empenho que estávamos dedicando. Ele realmente queria vir logo, e este “pacotinho”, mesmo depois de vazio, foi guardado como lembrança.
Logo após o almoço, o pai conversou mais um pouco, e já estava inquieto. Claro que era bom estar ali conosco, era tudo que ele queria na verdade, e em definitivo, mas seu compromisso com a casa que ele cuidava, era levado a sério. Um adeus bem rápido para não ficarem sentimentos aflorados e lá se foi o pai, numa estampa que só vendo.
Continuei pela tarde, dividido entre a frustração de não andar tão rápido quanto gostaria e a satisfação de ver o meu pai, melhor mesmo se meu irmão também pudesse vê-lo.
Emoções de lado, sigo tocando em frente, com o gostinho de quem recebeu a visita do dono da obra e ficou satisfeito com isto. Talvez não seja a realidade de alguns construtores, claro que meu motivo nesta tarefa está além da sobrevivência, e aqui, o dono da obra é sempre bem vindo e atualmente, me sentia extremamente vivo com isto.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Carol
Domingo. Ah...este domingo foi longo. Aquela companhia de ontem agora não estava por perto, afinal, meu sobrinho precisa do pai por perto o máximo de tempo possível. Para mim era fácil começar ou parar naquela tarefa a hora que bem entendesse, estava tudo em casa mesmo. Mas não demorou muito para meu entusiasmo se reerguer, apesar do friozinho, Carol, a filha mais nova, apareceu para dar uma olhada nas coisas. É comum  a “pequena do pai” se apresentar para dar aquela mão involuntária, quase sem querer. Só de ficar na volta, conversando, perguntando o que é uma ferramenta, porque estou fazendo aquilo, e daquele modo.
A conversa flui tão bem, que a motivação é automática. Alguém que faça a cabeça desviar um pouco da tarefa braçal, faz com que não fiquemos pensando muito no trabalho duro, já chega ter de fazê-lo.
Uma porção de gizes coloridos, na mão da Carolina foram um achado dentro do galpão, e a própria porta da garagem (as vezes galpão, as vezes garagem) serviam como quadro para a sua mais inocente e pura criativa expressão. O personagem preferido a ser caricaturado acaba sendo o pai...o pai dela: “Eu”.
São bonecos estranhos, portando cuia, bola de vôlei, violão, dentro de ginásio, com ou sem óculos, cabeça quase lisa, não fica muito diferente mesmo.
Um certo orgulho me invade, ser retratado assim como prova de boa lembrança. Acredito que muitos de nós, eu, a família, você, queremos estar assim, na lembrança das pessoas que gostamos. Seja por sermos persistentes, esquecidos, organizados, dedicados, desligados, bem amigos e até...engraçados.
Basta ver no dicionário a tradução de “engraçado”, além da idéia coloquial da expressão, e assim afirmo: quero estar rodeado de gente engraçada, que tenha a graça de ver e viver a vida, principalmente pelo lado bom, com alegria de rir de si próprio, não esbanjar conhecimento perto de alguém menos esperto, ter entendimento suficiente para mesmo depois de maduro, brincar. Não podemos ser maduros demais quando ainda somos muito jovens, mas não deveríamos anular a criança que fará parte de cada um, até o último dos dias.
E nesta idéia divertida entre o trabalho e a conversa, Carol larga o giz depois de escrachar o seu pai, nas madeiras da porta da garagem, envelhecidas pelo tempo e se distrai um pouco  com a massa de cimento. Enquanto eu preparo esta mistura, ela, menina, tão jovem, diz: como é interessante a textura deste cimento! Verdade filha. O cimento é muito interessante desde sua fabricação, transporte, fracionamento em sacos, comercialização, e manuseá-lo em pó ou na massa, são oportunidades aparentemente simples, mas só quem o faz pode dizer um dia qual era esta sensação. E não que tenhamos que ser todos “pedreiros” para uma hora dessas dar uma “mexidinha” na massa de cimento, basta estar por perto de um que o faça e pedir para “meter a colher”. Filha, quer experimentar um pouco? Claro pai.
Um tanto sem jeito, ou melhor, ao seu jeito ela deslizou a colher sobre a massa já misturada e umedecida e teve assim além da sensação do tato, mais esta participação na obra. E ficamos nós com uma boa sensação, quando permitimos aos jovens, sempre que estivermos em uma atividade diferente, a oportunidade de se envolverem. Trata-se de um trabalho, mas é quase uma brincadeira.
E assim o dia passou, o brother não estava, a filha apareceu... e como rendeu!

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

 
Meu irmão
...a estas alturas, a pá já não agüentava mais, meu carrinho com o eixo querendo pedir as contas, a enxada gasta pelos anos, já não era mais a mesma. O fim de semana foi duro, e a lida até agora, havia sido solitária, como aquela vida que meu pai viveu nos últimos tempos, eu precisava descansar, mas achei que estava bom o que tinha feito até então, bom mesmo...foi receber “a ajuda do Brother”.
Conversávamos um dia ao telefone, quando naturalmente falei que a obra já estava em andamento e ele prontamente se colocou a disposição, destacando a satisfação que teria em fazer algo especial para o nosso pai.
Não sou de aceitar as coisas de imediato, tinha que pensar um pouco. Mais uns dois minutos de conversa e disse a ele que poderia vir já no próximo fim de semana. Luvas, uniforme e ferramentas tinham de sobra para dois peões de obra.
Morando não muito próximo, uns 35 quilômetros entre nossas casas, separavam auxiliar de obra e auxiliar de obra, sim, porque não havia um especialista, restaria trabalhar num método antigo chamado: "axus quetá certus". 
Meu irmão com filho novo, o pequeno sobrinho Hector, precisava ficar em casa junto com minha cunhada, que logicamente necessitavam ficar com o carro a disposição. Mesmo assim, meu irmão não hesitou em se deslocar de ônibus e trem, para colaborar no que viria a ser, apesar do tamanho: Uma grande obra.
Era cedo da manhã quando o telefone tocou, meu irmão me avisava: “Já estou a caminho”. Ele levaria um bom tempo, um ônibus até a estação de trem e mais a viagem, uns 50 minutos talvez. Me programei para estar na estação do trem de São Leopoldo antes que ele chegasse. Um movimento forte nas proximidades do centro da cidade, este trem aglomera muita gente nas suas estações e entorno. Paradas de ônibus cheias, pedestre fora da faixa, carro na faixa, uma organização espetacular. Um sábado frio, previsão de sol e de ajuda. O sol apareceu...o brother também.
Uma figura com nenhuma outra. Ao telefone, dizia já estar na estação combinada, mas eu não o via. Não era para menos, vinha ele respondendo a minha ligação, caminhando, encasacado, de óculos escuros e sem empunhar telefone algum, o fone de ouvidos, wi fi, bluetooth, wire less, é uma loucura mesmo.
Já no carro, vínhamos sorridentes, jogando muita conversa fora como de costume, assim como o pai, não se costuma gastar muita energia com assuntos dramáticos, nos quais nada se pode fazer. E precisaríamos de energia para o trabalho, e nesta empreitada, nenhum personagem do assunto da hora nos ajudaria. Parei meio do caminho, queria lhe mostrar uma casa que estava sendo construída sobre um barranco, à beira da avenida, estrutura simplificada, pretendia usar a idéia. Chegando em casa, cumprimentos e brincadeiras com as meninas, afinal, Filipe viu cada uma delas desde o nascimento e acompanhou boa parte da vida de nossas filhas, os três se identificam muito e nesta hora eu saio de cena. Deixo-os brincarem um pouco antes da “pegada” no trabalho.
Como está fazendo frio, e a promessa do irmão mais velho aqui foi de equipamento completo, não foi fácil ao perceber a má avaliação no padrão físico do assistente de pedreiro. Meu irmão beirando um metro e noventa, e minhas roupas de quem mal passa dos um metro e oitenta deixam o coitado de canelas de fora. O índio velho não se intimida, vai assim mesmo...azar! Sorte a minha esta valentia toda. O calçado ele trouxe, um tal de “crocs”. Uma espécie de tamanco onde faltou madeira e fizeram de borracha, mas pesa como isopor. Ele gosta.
Hora de parar com a brincadeira, o pai está lá longe, talvez contando as horas pra poder continuar a vida perto da gente e o empreendimento imobiliário de fato está só na escavação do alicerce, meia dúzia de pedras e três paredes de uma garagem que só garantem parte da metade de tudo.
Imediatamente perguntando o que eu gostaria que ele fizesse, até fiquei sem jeito de lhe pedir já de início uma ajuda na escavação das valas, vai que ele acha alguma coisa de valor enterrada. Mas ele nem deu bola, pegou a direção do traçado inicial e grudou a pá com todo o gás. Quase não tive tempo e nem espaço para onde correr, era terra para todos os lados. E como correr se o terreno ao redor do que seria a casa já estava tão entulhado de muito lixo que ainda que não havia sido despachado? Acho que ele estava me sacaneando. Ah...vai ser assim é? Então me aguarde! Era só uma questão de oportunidade para dar o troco. Já podia ver nesta hora que iríamos nos divertir muito.
Como rendeu! Tenho dito sobre todos os dias em que ele pôde vir. Uma ajuda assim “de fé” faz render mais que o dobro de quando se trabalha sozinho, é o poder indiscutível da união, e melhor ainda quando é alguém de casa, que se tem tanto assunto, histórias e estórias para dizer e ouvir, que o dia acabou, a gente nem viu. Foi olhar para trás e dizer: “Como rendeu!”.

domingo, 1 de janeiro de 2012


Arqueologia
A tarde era hora de novamente calçar as luvas, e iniciar a abertura das valas onde se dariam os alicerces das novas paredes. Cavar é uma tarefa bem ingrata, extremamente braçal, pode não precisar de raciocínio algum, exceto pelo fato de que por ali subiriam paredes, e deveriam ser retas, presume-se. Fiz os esquadrejamentos como deu, talvez passando mais trabalho do que os profissionais que já têm métodos mais adequados, mas para a finalidade serviu.
Quando as valas vão ficando mais fundas, além do cansaço, a posição de trabalho fica mais prejudicada. Um pé dentro e outro fora do buraco, muita força e pouco avanço, raízes de árvores que nunca existiram aparecem e pedras por incrível que pareça, são duras!
Não há coisa tão infame ao se cavar, quando se emprega uma força violenta ao encontro de uma pedra inesperada. Ninguém acha em casa, ao abrir um buraco, um baú velho, com alguma coisa dentro que preste, só em filmes mesmo, mas pedras são garantidas.
Mas nem tudo está perdido, sim, porque eu ia achando tudo na escavação: sacola plástica, prendedor de roupa, roupa, bola velha,  pilhas (não se enterram pilhas), ossos de cães (Pity in memorian), pedaço de madeira, rolhas e tampas, e suas respectivas contrapartes: as Garrafas! Deus do céu...quanta garrafa! Inteira, quase inteira, quebrada, moída, long neck, 600ml, de vinho, de vodka, isto tudo revelava muito sobre o morador que habitou este lugar, e se considerarmos que quando adquirimos um lugar para morar, este era um terreno sem casa e sem mais nada ao seu redor, dinossauros não bebiam, acho que fui eu mesmo que produzi todo este tesouro enterrado.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Chegando o Material
..., combinamos lá na loja a entrega do material para o próximo sábado, o mais cedo possível, e o caminhão chegou bem cedo mesmo, e eu estava preparado, de luvas, portão aberto...
E lá estava o motorista, abrindo a lateral da carroceria, foi uma barbada descarregar pedras e tijolos sobre a calçada usando o braço hidráulico e um sistema de garfos suspensos. Material todo acomodado em palets, torna fácil uma operação que muitos anos atrás a madeireira que tivesse um caminhãozinho seria um estabelecimento de luxo. Jamais poderia me esquecer do primeiro trabalho, curso profissionalizante de mecânica concluído, uma curtíssima experiência na função em outra cidade, a convite do saudoso tio Doracy “in memoriam”, para trabalhar em uma metalúrgica na cidade de Montenegro (RS), e lhe ajudar no bar de um clube depois do expediente...
...Duas semanas nesta metalúrgica, me coloquei de volta pra casa, e acabei parando em uma madeireira.
Muito próxima da casa que morava com pai e mãe (Sapucaia do Sul), a Ferragem Primor foi o princípio de tudo. Convidado a trabalhar lá  pelo proprietário Sr. João Batista de Oliveira “in memoriam” ( como diz o pai: o pessoal andava morrendo mesmo...), um homem popular nos negócios, também também dirigia um partido político na cidade já tendo sido prefeito por duas gestões. Aceitei o convite de pronto. Balconista era como se nomeavam na época, justamente os que ficavam a maior parte do tempo atrás do balcão. Quase dois anos nesta função renderam incontáveis passagens e um gosto particular por materiais e suas aplicações, ferramentas, cada nome de artigo de ferragem que até hoje me pergunto: Quem batizou esta coisa? Alguém sabe o que é uma Cremona? Vai em uma Janela, isto diz alguma coisa? Pois é o mecanismo principal que movimenta duas varetas de aço, entrando ou saindo de uma cavidade no marco de uma janela do tipo “veneziana”, e vai explicar agora a “veneziana”, alguém vai jogar o livro no fogo!
Era um tal de ajuda a colocar saco de cimento no carro de um cliente, já passando o meio dia, a gente louco de fome, dividir aqueles cinqüenta quilos, parecia que se pegava sozinho o bendito saco. Responsável por liberação de “carretos”, agora chegamos no contraste com o tal caminhão com guindaste que me levava o material. No tempo que trabalhei na madeireira, era na base da carroça. E tinha piloto, carroceiro mesmo, que tentava passar a perna em mim, logo em mim: “ Gerente de logística em módulos de entrega de 1 HP”, mas bem capaz! Os caras tinham a engenhosidade de aproveitar quanto eu saía para a rua, e o próximo da fila, lá no balcão, discretamente (eu acho) passava para frente um pedido com endereço de entrega conforme lhe convinha, tipo: quanto mais perto e menor o peso melhor. Mas eu decorava cada pedido que entrava e paralelamente organizava uma distribuição mais honesta possível, dividindo cargas similares em peso e distância para cada cavalo.
O motorista do caminhão com a nota de entrega para ser assinada como recebida, e eu ali na calçada, olhando o material descarregado, em profunda viagem ao passado fazia toda esta regressão narrada, bom tempos.
Para não ficar feio, faz de conta que eu estava conferindo os tijolos, mas acho que o cara pensou que eu estava louco, e louco mesmo eu estava era pra colocar este material para dentro